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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

MEMÓRIAL CULTURAL DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA



INTERNACIONAIS  MAIS  DE  263  MIL  ACESSOS!
BRASIL  262 MIL
TOTAL  DE ACESSOS  MAIS  DE  525  MIL  ACESSOS NO PLANETA  TERRA! 23/01/2015



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Portugal
2285
Ucrânia
1838
Cingapura
1366

01a

A Academia de Letras da Bahia e seus presidentes:dedicação à memória cultural

Bruno Lopes do Rosário
A Academia de Letras da Bahia, instituição cultural fundada em 7 de março de 1917, data escolhida não por acaso (mesmo dia e mês da fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos, 7 de março de 1724), tem por objetivos “o cultivo da língua e da literatura nacionais, a preservação da memória cultural baiana e o amparo e o estímulo às manifestações da mesma natureza, inclusive nas áreas das ciências e das artes[2]”.
Nascia uma instituição voltada à preservação da memória cultural da cidade, um espaço que se apresenta como palco de discussões, debates, palestras, lançamentos de livros e encontros permanentes dos maiores expoentes da nossa cultura.
Para o bom andamento dos trabalhos, a Academia, através de seu Estatuto e Regimento Interno, garante uma diretoria eleita a cada biênio. À diretoria compete dirigir os trabalhos da Academia, administrar-lhe o patrimônio, dentre outras atividades. Ao Presidente, cabe, na forma do art. 10 do Estatuto, a direção geral dos trabalhos da Academia, representá-la em juízo, ativa e passivamente, e nas suas relações com terceiros. Dessa forma, os presidentes eleitos, têm de toda forma a responsabilidade e a honra de coordenar os trabalhos e participar ativamente das suas atividades diárias.
Nesta Academia os nomes destes (ex) presidentes dispensam elogios. O primeiro presidente foi Ernesto Carneiro Ribeiro, educador, apaixonado pela lingüística, sabia como ninguém as regras do bem falar e escrever a língua portuguesa. Exímio professor, estudioso incansável, foi escolhido para revisor do Projeto do Código Civil Brasileiro elaborado por Clóvis Bevilaqua, corrigindo-lhes as faltas relativas à linguagem. Esta se tornou polêmica pela condenação e críticas apresentadas por Rui Barbosa. Mas toda esta confusão rendeu-lhes trabalhos importantes como a Tréplica em resposta à Réplica do projeto apresentado por Rui Barbosa.
Seu sucessor foi o acadêmico Gonçalo Moniz de Aragão em função do falecimento do Prof. Carneiro Ribeiro. O Dr. Gonçalo Moniz faz assinar a Lei 1198, de julho de 1917, enquanto Secretário do Interior e Justiça e Instrução Pública, que considera de utilidade pública a referida Academia de Letras. Depois colaborou ativamente nas publicações da Revista da Academia, tendo sido o seu primeiro volume editado em 1930. Teve ainda papel importante com a sua atitude de defender com argumentos convincentes o direito e a participação da mulher na vida acadêmica, por ocasião da candidatura da Profª. Edith Mendes da Gama e Abreu, sendo voto vencedor.
No ano de 1921 toma posse o novo presidente da Academia, o competente historiador Braz do Amaral, que esteve à frente da casa até 1937 e que ocupou a cadeira de Sebastião da Rocha Pita.
Entre 1938 e 1944, são três os Presidentes desta casa. José Joaquim Seabra (ex-governador do Estado) que com seu prestígio, conseguiu à doação da casa da Praça 15 de Novembro (Terreiro de Jesus), onde passou a funcionar a nova sede, através do então Interventor Landulpho Alves. Acadêmico Carlos Ribeiro candente jornalista e jurista, era excelente em seus discursos e conferências, esteve na presidência nos anos de 1941-1942. Temos ainda de ressaltar a importância cultural de João Américo Garcez Fróes, que além de presidente desta casa (entre os anos de 1943-1945) foi também membro Honorário da Academia Nacional de Medicina no Rio de Janeiro.
Luis Pinto de Carvalho foi eleito presidente para o biênio de 1945-1946, estando à frente desta instituição até o ano de 1964, embora tenha sido ainda reeleito para o biênio de 1965-1966, falece em 1965, deixando um legado de mais de 50 trabalhos publicados entre livros, discursos, teses, relatórios. Até então foi o presidente que mais tempo levou ocupando este cargo.
Assumem sucessivamente entre os anos de 1966 e 1976 os acadêmicos Aloísio de Carvalho Filho, Thales de Azevedo, José Calasans, mons. Manuel de Aquino Barbosa, Estácio de Lima que participaram e contribuíram com brilhantismo para a manutenção e o bom andamento dos trabalhos da ALB.
Na história destes 90 anos de fundação da Academia, acadêmicos como Jorge Calmon e Hélio Simões estiveram à frente desta casa (entre 1977 e 1981) e como intelectuais que eram, entendiam a importância da ALB para a continuidade da preservação da memória cultural do nosso Estado. O pavilhão anexo da biblioteca Dr. Jorge Calmon, foi assim chamada para homenagear este grande jornalista que dedicou boa parte de sua vida em nome da cultura e das letras, e que ocupou a presidência nos anos de 1977-1979 e fez de fato aplicar odedicou boa parte de sua vida em nome da cultura e das letras, honrando de fato ia  lema: Servir à Pátria honrando as Letras.
A Academia de Letras esteve também muito bem representada e respeitada na gestão do Prof. Cláudio Veiga. Homem de elevada cultura e educação, dirigiu os trabalhos entre os anos de 1981 até o início de 2007, quando a ALB completou 90 de fundação em plena efervescência das suas atividades. Ficou 26 anos como presidente da Academia de Letras da Bahia. Dentre os seus valiosos trabalhos estão a Gramática do Francês, Prosadores e Poetas na Bahia Um Estudante em Paris.
De 2007 a 2011 a ALB foi presidida pelo educador e professor Edivaldo M. Boaventura. Entre outras realizações, reformou o Estatuto e Regimento, criou a Galeria dos Presidentes e o Site da ALB, inaugurou a Estátua Francisco Marques de Goes Calmon e o busto de Jorge Calmon nos jardins da sede, e instituiu a Medalha Arlindo Fragoso.
Desde 24 de março de 2011 a ALB é presidida pelo médico e escritor Aramis Ribeiro Costa, que ocupa a cadeira de nº 12. Em seu primeiro mandato (2011-2013), entre outras realizações, restaurou a sede internamente, criou o Curso Jorge Amado e o Colóquio de Literatura Brasileira em parceria com a Casa de Jorge Amado, e a Coleção Mestres da Literatura Baiana, em parceria com a Assembleia Legislativa da Bahia. Editou, ainda, o primeiro número do Anuário da Academia de Letras da Bahia.
Referências
  • CALMON, Jorge e VEIGA Cláudio. Oitenta anos da Academia/O Fundador. Academia de Letras da Bahia. 1997.
  • ESTATUTO e Regimento Interno da Academia de Letras da Bahia. EGBA: Academia de Letras da Bahia.
  • REVISTA da Academia de Letras da Bahia. Vol. VIII, 1942, pp. 55-67 e 315-319.
  • REVISTA da Academia de Letras da Bahia. Vol. IX, 1949, pp. 291-296.
  • REVISTA da Academia de Letras da Bahia. Vol. XVI, 1955, pp. 119-131.
  • REVISTA da Academia de Letras da Bahia. Vol. XI, 1950, pp. 287-293.
  • REVISTA da Academia de Letras da Bahia. Vol. XVI, 1955, pp. 39-52.

[1] Bruno Lopes do Rosário é historiador,  especialista em História Social e Econômica do Brasil e Chefe do Arquivo da Academia de Letras da Bahia.
[2] Estatuto e Regimento Interno da Academia de Letras da Bahia. EGBA: Academia de Letras da Bahia.








Eleita nova diretoria da ALB para o biênio 2015-2017


Em assembleia realizada no último dia 27 de novembro foi eleita a nova diretoria da ALB para o biênio 2015-2017. A acadêmica Evelina de Sá Hoisel, ensaísta e professora do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, será a primeira mulher a presidir a entidade desde a sua fundação a 7 de março de 1917. Da mesma forma, a vice-presidência será ocupada pela poeta e presidente da Fundação Casa de Jorge Amado, Myriam de Castro Lima Fraga. A eleição da chapa única se deu de forma unânime pelos vinte acadêmicos presentes.
O presidente Aramis Ribeiro Costa informou que a chapa eleita será empossada na abertura do ano acadêmico de 2015.
Diretoria eleita:
  • Presidente: Evelina de Carvalho Sá Hoisel.
  • Vice-Presidente: Myriam de Castro Lima Fraga.
  • Primeiro Secretário: Carlos Jesus Ribeiro.
  • Segundo Secretário: Ordep José Trindade Serra.
  • Primeiro Tesoureiro: Dom Emanuel d’Able do Amaral.
  • Segunda Tesoureira: Gláucia Maria de Lemos Leal.
  • Diretor da Revista: Fernando da Rocha Peres.
  • Diretor da Biblioteca: Edivaldo Machado Boaventura.
  • Diretor do Arquivo: Paulo Ormindo David de Azevedo.
  • Diretor de Informática: Paulo Costa Lima.
  • Conselho Editorial: Aramis de Almada Ribeiro Costa, Aleilton Santana da Fonseca, Florisvaldo Moreira de Mattos.
  • Conselho de Contas e Patrimônio: João Eurico Matta, Geraldo Magalhães Machado e Joaci Fonseca de Góes.















Presidentes


aramisthumb
Aramis Ribeiro Costa
2011 até o presente
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Edivaldopeb
Edivaldo Boaventura
2007 – 2011
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Claudio Veiga
Cláudio Veiga
1981 – 2007
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Helio Simoes
Hélio Simões
1979 – 1981
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Jorge Calmon
Jorge Calmon
1977 – 1979
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Estacio de Lima
Estácio de Lima
1975 – 1976
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Mons Manoel Aquino Barbosa
Mons. Manoel de Aquino Barbosa
1973 – 1974
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Jose Calasans
José Calasans
1971 – 1972
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Thales de Azevedo
Thales de Azevedo
1968 – 1970
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Aloisio de Carvalho Filho
Aloysio de Carvalho Filho
1966 – 1968
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Pinto de Carvalho
Pinto de Carvalho
1945 – 1964*
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Joao Americo Garcez Froes
João Américo Garcez Fróes
1943 – 1944
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Carlos Ribeiro
Carlos Gonçalves Ribeiro
1941 – 1942
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Braz do Amaral
Braz Hermenegildo do Amaral
1921 – 1941
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Ernesto Carneiro Ribeiro
Ernesto Carneiro Ribeiro
1917 – 1921
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Histórico


Nobre Solar da Ladeira da Praça - Data da instalação da ALB em 7 de maço de 1917
Nobre Solar da Ladeira da Praça – Data da instalação da ALB em 7 de março de 1917
A Academia de Letras da Bahia foi fundada em 7 de março de 1917 no modelo da Académie Française e da Academia Brasileira de Letras, com quarenta cadeiras numeradas, cada uma com o respectivo patrono permanente e imutável, quarenta membros efetivos e vinte correspondentes, todos vitalícios. A data escolhida para a fundação homenageava a Academia Brasílica dos Esquecidos, primeira academia de letras do Brasil, instituída na Bahia em 7 de março de 1724. Como principais objetivos, a nova instituição declarou, desde o seu primeiro momento, “o cultivo da língua e da literatura nacionais, a preservação da memória cultural baiana e o amparo e estímulo às manifestações da mesma natureza, inclusive nas áreas das ciências e das artes” (Art. 1º do Estatuto) trazendo ainda como lema “Servir à Pátria honrando as letras”.
Arlindo Fragoso - Fundador da Academia de Letras da Bahia - 1917
Arlindo Fragoso – Fundador da Academia de Letras da Bahia – 1917
O idealizador e organizador foi o engenheiro Arlindo Fragoso. Baiano da cidade de Santo Amaro da Purificação, foi também o fundador do Instituto Politécnico e, depois, da Escola Politécnica da Bahia, da qual tornou-se um dos professores e diretor. Intelectual e político, Arlindo Fragoso reuniu, em sua lista dos quarenta fundadores, o que havia de mais representativo nas letras e na política na Bahia da época, sem, entretanto, incluir-se. A sua inclusão entre os membros efetivos deu-se por exigência dos demais fundadores, e, para isso, foi criada, em caráter provisório, a Cadeira nº 41, até que houvesse a primeira vaga, o que ocorreu seis meses após, com a morte de Severino Vieira, tendo sido extinta a cadeira extra. O primeiro presidente foi o filólogo e professor Ernesto Carneiro Ribeiro, ficando Arlindo Fragoso como primeiro secretário.
Primeira sede própria da ALB - Terreiro de Jesus
Primeira sede própria da ALB – Terreiro de Jesus
Uma das sedes da ALB - Prédio que fica ao lado do Palácio da Aclamação no Campo Grande
Uma das sedes da ALB – Prédio que fica ao lado do Palácio da Aclamação no Campo Grande
Instituída com grande prestígio pela representatividade, notabilidade e respeitabilidade de seus membros fundadores, a Academia de Letras da Bahia, além de funcionar com suas atividades internas, próprias da instituição, encontrou, já na sede do Terreiro de Jesus, condições de exercer uma significativa atividade cultural de interesse público, voltada para as letras.
Inauguração da nova sede da ALB em 1983, palacete Góes Calmon
Inauguração da nova sede da ALB em 1983, palacete Góes Calmon
Com a mudança para a sede definitiva, no Palacete Góes Calmon, à Avenida Joana Angélica nº 198, expandiu essas atividades, a ponto de se constituir atualmente um importante núcleo difusor de cultura, voltado principalmente para as letras e a literatura brasileira, em particular as letras e a literatura baiana, o que se dá por meio de lançamentos de livros, palestras, conferências, cursos, seminários, colóquios, encontros com escritores, concursos e prêmios literários, além de publicações. Sua biblioteca, de referência para o livro baiano, e seu arquivo, que guarda a memória da instituição e dos próprios acadêmicos, encontram-se à disposição dos pesquisadores. Sua sala de informática, também aberta aos pesquisadores, e seu site, colocam a instituição na linha de frente na pesquisa e na informação das atividades culturais no Estado da Bahia.


Notícias &Produção Acadêmica















Acadêmicos


Cadeira 1
Luís Henrique Dias Tavares
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Paulo Ormindo
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Cadeira 3
Guilherme Radel
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Cadeira 4
Geraldo Machado
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Cadeira 5
Carlos Ribeiro
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Cadeira 6
Cleise Mendes
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Cadeira 7
Joaci Góes
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Cadeira 8
Paulo Costa Lima
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Cadeira 9
João Ubaldo Ribeiro
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Cadeira 10
Monsenhor Gaspar Sadoc
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Cadeira 11
Yeda Pessoa de Castro
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Cadeira 12
Aramis Ribeiro Costa
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Cadeira 13
Myriam Fraga
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Cadeira 14
Gláucia Lemos
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Cadeira 15
João Carlos Teixeira Gomes
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Cadeira 16
João Eurico Matta
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Cadeira 17
Ruy Espinheira Filho
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Cadeira 18
Waldir Freitas Oliveira
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Cadeira 19
Cid Teixeira
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Cadeira 20
Aleilton Fonseca
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Cadeira 21
Antônio Brasileiro
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Cadeira 22
Clóvis Lima
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Cadeira 23
Samuel Celestino
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Cadeira 24
Francisco Senna
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Cadeira 25
Fernando da Rocha Peres
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Cadeira 26
Roberto Santos
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Cadeira 27
James Amado
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Cadeira 28
Consuelo Pondé de Sena
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Cadeira 29
Hélio Pólvora
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Cadeira 30
Paulo Furtado
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Cadeira 31
Florisvaldo Mattos
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Cadeira 32
Gérson Pereira dos Santos
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Cadeira 33
Mãe Stella
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Cadeira 34
Evelina Hoisel
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Cadeira 35
Luiz Antônio Cajazeira Ramos
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Cadeira 36
José Carlos Capinan
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Cadeira 37
Dom Emanuel d’Able do Amaral
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Cadeira 38
Armando Avena
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Cadeira 39
Edivaldo Boaventura
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Cadeira 40
Urânia Tourinho Peres



As Viagens de St. Brendan — A Ilha Brasil (Waldir Freitas Oliveira)

Sabemos muito pouco, no Brasil, sobre a história da Irlanda. E mesmo nos dias atuais, levando-se em conta o progresso das comunicações, reconhecemos continuarem os nossos  conhecimentos sobre aquele país sendo escassos, pelo que, como resultado da precariedade dos registros disponíveis, poder soar aos nossos ouvidos com estranheza a notícia de ali haver vivido um São Brendan, que alguns historiadores insistem em “aportuguesar” para Brandão, tanto quanto a da existência de uma ilha chamada “Brasil”, situada em pleno oceano, a oeste daquele país, que teria sido por esse santo visitada em tempos anteriores aos das viagens de Colombo e Cabral, realizadas em 1492 e 1500.
São Brendan, também conhecido como St. Brendan, the Navigator, existiu de fato, havendo nascido, provavelmente, no último quartel do século V da Era Cristã, 484, na Irlanda, em Tralee, no condado de Kerry.
Tornou-se um clérigo merecedor de alto respeito pelos que com ele conviveram, tendo fundado em seu país vários mosteiros e viajado muito pelas terras e mares da Inglaterra, Irlanda, Escócia e País de Gales, havendo chegado às costas da Bretanha, no continente, onde passou a contar, para sua ação missionária, com um discípulo, de longa tradição até hoje na França — Saint Malo (Mac Law, em gaélico). Teria sido ainda abade no mosteiro de Clonfort, no País de Gales, localizado em Galway, situado, como tantos outros, à margem dos mares orientais irlandeses.Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Tendo um dia tomado a decisão de navegar na direção do oeste em busca da Terra Prometida dos Santos (Terra Repromissionis Sanctorum), da qual lhe teriam falado, preparou uma viagem, em companhia de catorze outros monges, para ir visitá-la. E navegou, então, realizando-a durante quarenta dias sobre o oceano.
Deixou-nos, felizmente, a descrição de uma das suas viagens, em um precioso documento, mais tarde intitulado Navigatio sancti Brendani abbatis, no qual mencionou, uma por uma, as ilhas por ele visitadas, entre as quais estaria, provavelmente, a de “Hy-Brasil” (devendo esclarecer-se que esse nome já era dado, havia muito, a uma ilha que nada tinha a ver com o Brasil “descoberto” em 1500 pelos portugueses, que desse modo passaram a denominar aquela “nova” terra, em razão de nela terem encontrado árvores das cascas das quais poderiam obter uma tintura vermelha, com cor semelhante a uma brasa de fogo), ainda que representasse a expressão Hy-Brasil, na narrativa de São Brendan, somente uma corruptela de O’Brasil, Isle of the Blest (Ilha da Bem-Aventurança), expressa em língua gaélica.1
Segundo nos informa Samuel Eliot Morison, ninguém cuidara, até quando escreveu ele a sua obra, de reconstituir-lhe a história. Mas acentua que a presença dessa ilha é constante na tradição oral dos irlandeses, herdada, por certo, dos celtas, sendo por eles considerada uma espécie de “campos elísios”, onde ficam as almas à espera do momento em que irão ingressar no reino dos céus, imaginando-a, pois, como uma ilha encantada, onde reinam a paz e a tranquilidade.
Acreditam, no entanto, que nenhum ser humano jamais haja posto nela os pés, existindo, porém, a tradição de que, se alguém chegar a dela aproximar-se a ponto de poder avistar as fogueiras acesas em suas praias, não será hostilizado. E um poeta irlandês, Gerald Griffin (1803 – 1840), escreveu sobre ela um poema que começa com os seguintes versos:
On the ocean that hollows the rocks where ye dwell,
A shadowy land has appeared, as they tell;
Men thought it a region of sunshine and rest,
And they called it Hy-Brasail, the isle of the blest.
E mesmo sendo essa ilha considerada um lugar sagrado, foram muitos os homens de altos negócios instalados em Bristol que se dispuseram a financiar viagens buscando encontrá-la, havendo figurado entre os navegadores que partiram à sua procura o famoso João Caboto, em viagem empreendida em direção ao oeste, realizada em 1497. Nunca, porém, a ilha de Hy-Brasil foi encontrada, sendo grande, no entanto, a literatura que a ela se refere, surgida no decurso dos séculos XIX e XX.
Buscando identificar os mapas e as cartas geográficas onde ela então apareceu, seguimos o texto de Samuel Eliot Morison e nele a encontramos, registrada essa sua presença em sequência cronológica, inicialmente na carta de Bartolomeo Pareto, desenhada em 1455 e reproduzida no Atlas de Kretschmer (1892), onde surge uma insula de Brazil, situada a oeste da península ibérica, em pleno Oceano Atlântico, localizada entre as ilhas de San Zorzo (São George), a de Ventura e a de Colombi (pombos), ao norte, e as de Capraria (bodes) e do Louo (lobo), ao sul, todas elas ali denominadas insulle fortunate sãct Brandawy.2
Essas ilhas de São Brendan figuraram também no primeiro globo terrestre, construído em 1492 pelo alemão Martin Behaim, nele aparecendo com o nome de Sand Branden, o que nos faz constatar o fato de haverem estado elas presentes nos mapas e cartas existentes antes da descoberta da América, ainda que hajam, a partir de então, neles aparecido cada vez com menor frequência, embora tenham ainda figurado no célebre mapa de Ortelius, desenhado no século XV.
Quanto à ilha Hy-Brasil, que, por sinal, nunca foi encontrada, começou a partir do século XVI a ser mencionada como situada cada vez mais a oeste, em relação ao ponto onde antes comumente figurara, e foi com a denominação de Brasil Rock que apareceu no Jeffrey´s American Atlas, editado em Londres, em 1776, nele localizada a 51º de latitude norte e 17º14´ de longitude oeste, acompanhada, porém, da advertência de ser uma ilha “imaginária”; e também na Memorie descriptive and explanatory of the North Atlantic Ocean, obra organizada por A. G. Findlay, publicada em 1853, nela tendo figurado como situada a 51º10´ de latitude norte e 16º de longitude oeste, afirmando, contudo, esse autor não haver sido ainda comprovada a sua existência e esclarecendo haver ali incluído aBrasil Rock tomando por base informações colhidas entre os integrantes da tripulação do navio Bristowe, que afirmaram havê-la avistado em viagem realizada no ano de 1791. Foram, porém, tão numerosas as dúvidas surgidas sobre existir ou não a referida ilha, que o próprio A. G. Findlay decidiu não mais apresentá-la na edição de 1865 do seu trabalho.3
Retornemos, então, à fonte de onde manaram as primeiras informações sobre essas misteriosas ilhas — o texto da Navigatio sancti Brendani abbatis —, dele constando haver o abade Brendan recebido, certo dia, a visita de outro abade, chamado Barynth, que lhe contou como o seu filho, de nome Mermoc, viajando na direção do oeste, descobrira uma “deliciosa ilha”, habitada por monges, a que chamou de Terra Promissiones Sanctorum, havendo a seguir o levado até lá para que a conhecesse, tendo afinal convencido Brendan a também ir até aquela ilha em companhia de outros monges.
Tratou então Brendan de escolher quatorze ou quinze companheiros para acompanhá-lo nessa viagem. Eles começaram a construir o barco que até lá os levaria, estando pronta a embarcação ao fim de quarenta dias, com o seu casco feito com varas de vime unidas umas às outras de forma muito justa e revestido, a seguir, “com couro de vaca curtido com óleo vegetal e com suas frestas tomadas com alcatrão”, nele tendo sido colocadas “provisões para quarenta dias de viagem e gordura suficiente tanto para untar o couro do casco, como para a proteção, contra o sol, dos monges e dos objetos que iriam ser por eles utilizados durante a viagem”.4
Samuel Eliot Morison afirma ser muito boa a descrição,               feita nesse texto, de um determinado tipo de barco de pequeno      tamanho, usado ainda em nossos dias pelos pescadores irlandeses,     por eles chamado curragh, havendo sido essa embarcação,  provavelmente, uma invenção dos celtas, assinalando ser o seu             casco coberto por couro e não sendo, portanto, inteiramente construído em madeira, em razão de não ser abundante a madeira      na Irlanda e de ali existirem, à epoca da referida viagem, rebanhos numerosos de bovinos. Informa, concluindo o seu comentário, ser o curragh uma embarcação segura, mesmo tendo de enfrentar mares bravios.
Da narrativa de St. Brendan consta, ainda, que dezoito monges (três ou quatro além dos inicialmente previstos) nele partiram na direção do poente e que, após quarenta dias de viagem, quando as provisões já estavam a findar-se, avistaram uma ilha rochosa, com montes cujas encostas mergulhavam, abruptamente, no mar em torno, onde não encontraram lugar seguro para ancorar seu barco; e que, enquanto os monges entravam, por isso, em desespero, Brendan lhes assegurou que o Senhor Deus Todo Poderoso lhes mostraria, em três dias, o ponto onde poderiam aportar, o que, de fato, veio a acontecer. E quando afinal o encontraram, logo depois de ali terem chegado e desembarcado, lhes apareceu um cão que se pôs a festejá-los. Pelo que os monges decidiram segui-lo, agradecendo ao Senhor Deus Todo Poderoso por havê-lo enviado.
O cão então os conduziu para uma cidade (town), onde o principal edifício era um grande castelo, tendo as paredes dos seus salões cobertas por objetos fabricados com metais variados, entre eles aparecendo arreios e trompas com engastes de prata, ali havendo sido preparada e servida aos monges uma farta refeição, com pães e peixes para todos eles.
Um dos monges, contudo, um dos que haviam pedido a Brendan, na hora da partida, que os levasse em sua viagem, roubou um dos arreios de prata presos às paredes. E Brendan viu surgir à sua frente, quando todos dormiam, um demônio, que assumiu a forma de um anão negro, mostrando nas mãos os arreios roubados e apontando na direção de quem os furtara, havendo, a seguir, Brendan os retirado do capuz onde o monge ladrão os escondera. Mas, tendo o monge, na manhã seguinte, ao ver que seu roubo havia sido descoberto, lhe implorado perdão, Brendan absolveu-o. Então o demônio voltou a aparecer-lhe, dirigindo-lhe ásperas palavras e demonstrando sua insatisfação pela absolvição que ele concedera, o que o impedia de levar a alma do monge ladrão para o inferno. E aconteceu que, naquela mesma noite, morreu o monge que furtara os arreios de prata, havendo a sua alma sido conduzida por anjos para o paraíso.
Continuaram os monges visitantes a explorar a ilha, havendo nela encontrado um jovem que carregava grandes cestos com pães e uma ânfora com água para servir os viajantes, que ali permaneceram por vários dias, sendo sempre bem tratados pelo responsável pelos negócios do mosteiro, que passou a lhes fornecer os alimentos necessários à sobrevivência.
Dessa primeira ilha seguiram dois dias depois para outra, que denominaram “Ilha dos Carneiros”, onde comemoraram a Páscoa, dela havendo passado para outra, que chamaram de “Paraíso dos Pássaros”, onde as aves por eles encontradas falavam e cantavam em latim, dela tendo eles partido em uma nova viagem, que durou três meses, durante a qual somente viram céu e mar, chegando então à “Ilha dos Frutos”, que era povoada por grifos e gigantes, donde seguiram para a “Ilha da Abadia da Eterna Juventude e do Silêncio”, onde se demoraram por alguns dias.
Foram muitas, portanto, as ilhas por eles visitadas. E numa delas Brendan e seus companheiros encontraram um homem fortememente amarrado a um rochedo, com o seu corpo a ser atingido de modo incessante pelas ondas do mar em fúria. E, quando os monges lhe perguntaram quem ele era, ele lhes respondeu ser Judas, “o mais depravado de todos os criminosos”, e reconheceu merecer o castigo que lhe estava sendo aplicado. Mas Brendan pediu, então, ao Senhor Deus Todo Poderoso que libertasse aquele homem durante um único dia, sendo por Ele atendido, suscitando essa curta suspensão da pena que fora imposta ao homem a fúria dos demônios que o guardavam.
Muito tempo ainda estiveram os monges a navegar naqueles mares e entre aquelas ilhas, havendo eles chegado finalmente à Terra Repromissionis Sanctorum, à Terra da Promissão dos Santos, repleta de árvores frutíferas, nela havendo permanecido durante três dias, que se sucediam sem que fossem separados por noites. E antes de regressar à Irlanda visitaram, ainda, a “Ilha das Delícias”, onde vivia Mermoc, o filho do abade Barynth.
Não surge contado do mesmo modo, nas várias descrições existentes desssas viagens, no que se refere à sua duração, o tempo que os monges gastaram em cada uma dessas ilhas, variando ele em cada uma das versões consultadas, registrando-se o fato de serem elas numerosas, e ainda o fato de nem sempre surgirem idênticas as narrativas sobre o que nelas viram os viajantes.
A narrativa termina, contudo, em todas elas, de modo repentino, informando o regresso de Brendan e seus companheiros ao seu mosteiro, na Irlanda, havendo então os monges agradecido ao Senhor Deus Todo Poderoso o feliz retorno dessa sua longa viagem. E em certa versão da Navigatio encontra-se a informação de a morte de Brendan haver ocorrido em 577 ou 583 A. D., havendo sido ele, após o seu falecimento, canonizado, passando a figurar entre os santos irlandeses, em quarto lugar quanto à hierarquia, no culto e na aceitação, somente ficando abaixo de St. Patrick, Santa Brígida e São Columba.
Sendo este um rápido resumo de uma das viagens de St. Brendan, contendo a sua narrativa as descrições das numerosas passagens com as cenas de encontro dos monges com animais fantásticos que tentaram devorá-los, de todos eles havendo os monges escapado graças à ajuda que lhes deu, de modo permanente durante a viagem, o Senhor Deus Todo Poderoso.
Perguntamos, então, o que haverá de verdade nesse longo relato de uma viagem fantástica, sem que tenhamos resposta adequada para a nossa pergunta. E aqui realçamos o fato de haver essa narrativa se tornado na Irlanda tão conhecida e relembrada quanto as que contam as aventuras do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda na Inglaterra; e o de essas ilhas, que ficaram ali conhecidas como Insulae Sancti Brendani, possuírem, sem dúvida, na memória popular dos irlandeses, uma existência “real”.
***
Vários autores já comentaram a narrativa dessa viagem mágica, e dentre os que o fizeram, em anos relativamente recentes, deverá destacar-se, pela excelência do seu trabalho, Carl Selmer, que analisou 17 manuscritos distintos, traduziu-os, após longo estudo comparativo, do latim para o inglês e propiciou-nos, em obra hoje rara, o conhecimento de um texto que é por muitos considerado o melhor trabalho já efetuado sobre o tema.5
Sem que tivéssemos, contudo, obtido acesso a tal publicação, limitamo-nos, graças à prodigiosa ajuda da internet, à leitura da tradução do texto da narrativa, efetuada em 1893 por Denis O’Donoghue, em edição patrocinada pelo arcebispo P. F. Moran e divulgada por The Celtic Christianity e-Library; bem como à consulta a uma recente edição crítica de excepcional valor sobre essa narrativa, organizada sob a direção de Glyn Burgess, professor da Universidade de Liverpool6; e, finalmente, à leitura dos comentários feitos por Guillermo Giucci em seu livro Viajantes do maravilhoso acerca do que foi escrito por Carl Selmer, entre os quais realçamos a sua afirmativa de haver Carl Selmer destacado, na introduction por ele escrita para a Navigatio, “a importância de dois tópicos do relato hagiográfico que estruturariam a forma da narrativa, o primeiro tendo a ver com a busca da terra prometida, o segundo, com a visão do paraíso”7. Havendo comentado, logo adiante, e acentuado com propriedade que “revelação, prodígio e experiência pessoal fundem-se na Navigatio”. E mais ainda que
[…] a fusão destes elementos transforma a narração da
viagem num testemunho alegórico da mediação divina, e
esta mediação diminui a problemática do sofrimento dos
santos em seu caminho rumo ao páraíso, pois que a insere
no itinerário da vitória da fé sobre os obstáculos naturais.8
Dessa maneira, segundo afirma, nela torna-se Deus “o leme da nau”. Sendo Ele, portanto, quem “sopra as velas e inevitavelmente guia o peregrino à meta desejada”.
Prossegue, afirmando que “a visão do paraíso que coroa o quadro das maravilhas do recôndito se inscreve no texto como o elemento consolidador, por excelência, do maravilhoso hagiográfico”. E, reforçando essa sua ideia, acrescenta:
Engastadas na enorme muralha que protege o acesso à terra prometida, refulgem pedras preciosas, crisólitos como gotas de ouro, topázios amarelos, jaspes com ametistas, ônix, ágatas e esmeraldas. E se a muralha deslumbra com suas riquezas, dentro do recinto murado as maravilhas são indescritíveis. Bosques floridos, rios de leite, frutas perfumadas, montanhas de ouro, pedras preciosas; a visão paradisíaca recapitula, com suas imagens de abundância, valor, disponibilidade e utilidade, as virtudes de regiões extraordinárias que parecem existir à espera do viajante europeu.9
Conclui, então, que, na narrativa de São Brendan, “o maravilhoso transforma-se em intocável, num artifício dos deuses, numa fabricação lúdica de cuja estrutura não se pode retirar mais que um tijolo minúsculo sem evitar seu desmoronamento completo”.10
Levando-se agora em conta o que escreveram sobre a “ilha Brasil” autores brasileiros, iremos referir-nos, assinalando sua condição de pioneiro, a Capistrano de Abreu, quando informou haver sido de uso comum o nome Brasil em tempos anteriores à viagem do “descobrimento” de Cabral, quando, em 1907, afirmou, em Capítulos de história colonial (1500-1800), que
 […] o nome do Brasil já era bem conhecido e figurado em portulanos anteriores às descobertas dos portugueses; havia um nome à procura de aplicação, exatamente como o de Antilha, e isto explicaria a rapidez com que se introduziu e vulgarizou, suplantando outras denominações, como Terra dos Papagaios, Vera Cruz, ou Santa Cruz, se a abundância de uma apreciada madeira de tinturaria até então recebida por via do Levante, e o comércio sobre ela fundado desde o começo, não colaborassem na propaganda, e talvez com maior eficácia.11
Anos depois, o jornalista e historiador Francisco de Assis Cintra publicou, em 1921, em edição da Companhia Melhoramentos de São Paulo, o livro Nossa primeira história (a de Gandavo) e, no capítulo inicial desse seu trabalho, intitulado “O precursor de Cabral”, buscando identificar a “ilha” descoberta por Pedro Álvares Cabral com a “ilha Brasil” presente na tradição oral irlandesa, criou a figura de Sancho Brandão, que teria integrado a armada do rei de Portugal Afonso IV, que reinou de 1325 a 1357, havendo descoberto o Brasil antes, portanto, de Cabral, tendo, ao regressar a Portugal, oferecido a ilha que “achara” à coroa portuguesa, passando ela a ser conhecida, desde então, como “ilha do Brasil” ou “ilha de Brandão”.
Revelando-se esse autor, com sua afirmativa, bem mais um ficcionista que um historiador, por não haver sido comprovada, em qualquer tempo, a existência desse Sancho Brandão, nem ter sido registrado qualquer descobrimento no Oceano Atlântico durante o reinado de Afonso IV, estando ele a apoiar-se, em defesa de sua afirmativa, em carta enviada ao papa Clemente VI por esse rei português, a 12 de fevereiro de 1343, na qual, em sinal de protesto por haver o pontífice reconhecido as chamadas “Ilhas Afortunadas” (as atuais Ilhas Canárias) como pertencentes ao Reino de Castela, alegava terem sido “os nossos naturais os primeiros que acharam as mencionadas ilhas ocidentais”, ilhas, aliás, onde teriam chegado, em data muito antiga, porém incerta, os cartagineses, mas que somente acabaram sendo efetivamente ocupadas por europeus em 1402, quando da viagem feita pelos normandos Jean de Béthencourt e Gadifer de la Salle, navegando a serviço da Espanha.12
Muitos anos depois, em 1942, após haver publicado, em 1930, Aquém da Atlântida, no qual se referiu a esse assunto, Gustavo Barroso (1888 – 1959) abordou de modo decisivo esse tema em seu livro O Brasil na lenda e na cartografia antiga, livro que contou com uma segunda edição em 2000, sendo essa uma obra na qual demonstrou possuir uma vasta erudição, muito havendo informado sobre as “ilhas de São Brandão”, tomando por base ampla bibliografia, sem cometer os enganos de Assis Cintra, havendo insistido, ao final do seu texto, em relacionar o nome “Brasil” ao termo gaélico brasil, este com a significação debless (bem-aventurança), afirmando, afinal, que, “em face da documentação apresentada, é impossível deixar de reconhecer que a palavra brasil foi, antes de tudo, aplicada para denominar uma ilha do Oceano Atlântico, tendo sido utilizada, no dizer de Latino Coelho, para designar “regiões geograficamente desconhecidas ou figuradas ao sabor da fantasia dos cartógrafos”13. Havendo acrescentado que “as origens e o processo de formação do nome Brasil não podem ser outros”, indo a seguir comentar, a respeito da expressão,
[…] não haver quem não prefira que o apelido do seu torrão natal signifique “terra abençoada”, “terra dos afortunados”, “terra dos bem-aventurados”,of the blest, do que recorde tão somente o utilitário e vulgar comércio do pau de tinta, exercido, nos primeiros tempos da conquista, não por portugueses idealistas que a realizaram, mas pelos cristãos-novos Loronhas e Bixordas, que tiravam real proveito da sua audácia, colhendo tranquilamente os frutos do seu destemor.14
Vale, então, o registro feito aqui, com justiça, da qualidade do verbete constante do Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808), editado em 2000, organizado por Ronaldo Vainfas, no qual conseguiu esse historiador resumir, de modo perfeito, tudo o que se conhece a respeito do assunto, relembrando o que antes dissera a respeito Capistrano de Abreu e citando, com propriedade, o historiador português Jaime Cortesão, quando sugeriu haver a ideia de uma “ilha Brasil” ter sido concebida pelos portugueses sob a forma de um “mito geopolítico”.15
Havendo assumido recentemente a mesma posição proposta por Latino Coelho, Capistrano de Abreu e Jaime Cortesão, referendada, como informamos, por Ronaldo Vainfas, a historiadora Laura de Melo Souza, em artigo publicado em Nossa História sob o título “O nome do Brasil”, quando afirmou que, “entre 1351 e 1500, os mapas europeus mostram o nome ‘Brasil’, bem como variantes dele — Bracir, Bracil, Brazille, Bersil, Braxili, Bruxil, Bresilge —, designando, em lugares diferentes, uma ilha ou até três, expressando um horizonte geográfico ainda mítico, como o das Ilhas Afortunadas e tantas outras miragens que a prática navegadora e a experiência acabariam por dissipar”. Donde haver ela concluído que “primeiro houve o nome, depois o lugar que foi nomeado”.16
Naquele mesmo ano de 2004, foi publicado no Rio de Janeiro o livro do jornalista Geraldo Cantarino Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro17, devendo-se a seu respeito registrar haver ele recebido severas críticas de vários historiadores brasileiros, que nele apontaram graves erros de expressão  e interpretação dos fatos narrados, figurando entre os que mais o criticaram a professora doutora Luciana de Campos, da Unesp de São José do Rio Preto, São Paulo, integrante do Grupo de Estudos Celtas e Germânicos daquela universidade, que divulgou sua opinião a respeito desse livro em artigo na internet sob o título “As raízes celtas do Brasil”, nele havendo reprovado o autor não apenas por haver usado impropriamente uma “linguagem extremamente coloquial”, como por não haver dado ao seu texto uma “seriedade documental” e, ainda mais, por ter ele insistido em transformar seu livro em claro “apelo esotérico e fantasioso”. E ela declarou, afinal, de modo impiedoso, “esperar que os estudantes universitários que ora iniciam suas pesquisas nos estudos celtas [que segundo alguns somente poucos escolhidos merecem realizá-los, o que, a nosso ver, é um erro] não se inspirem nessa obra e, muito menos, a tomem como referência”.18
Quanto a nós, aceitamos o livro de Geraldo Cantarino como sendo uma contribuição válida para a abordagem do seu tema específico: o da origem do nome Brasil. Apesar de reconhecermos terem sido justas as críticas que lhe foram feitas, especialmente quando não evitou deixar-se conduzir por hipóteses fantasiosas, chegando mesmo a admitir uma suposta presença, em tempo ignorado, dos fenícios em terras do Brasil, e por não possuir o autor uma formação de historiador, não havendo apresentado sua argumentação enquadrada nos rigorosos moldes cuja utilização se tornou costume exigir-se desses profissionais, consideramos que Uma ilha chamada Brasil concorreu para que um assunto pouco tratado na área da historiografia brasileira voltasse a ser discutido como antes o fora, nos inícios do século passado, sendo louvável o esforço realizado pelo seu autor para reunir e apresentar aos seus leitores uma vasta e oportuna bibliografia a respeito do assunto por ele tratado. Não havendo, portanto, a nosso ver, as críticas feitas ao seu livro se mostrado capazes de invalidar a importância da sua publicação, tendo ele merecido, pouco depois do seu lançamento, ser citado como referência pela prestigiosa Revista de História da Biblioteca Nacional (Ano II, n. 15, dezembro 2006), em apoio ao texto nela publicado sob o título “Todos os nomes do Brasil”, de autoria de José Murilo de Carvalho. Merecendo, ainda, Geraldo Cantarino os nossos aplausos por haver tentado retirar do esquecimento a figura do irlandês Roger Casement, cujo nome e atuação em seu tempo a singularizaram, tornando-o, inclusive, em tempos de agora, personagem central de um dos mais recentes romances do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, El sueño del celta (Buenos Aires: Alfaguara, 2010).
E voltando a falar de São Brendan, assinalemos que a maioria dos historiadores modernos admite existir na lenda de sua viagem um fundo de verdade, ainda que não exista a possibilidade de descobrir-se a real identidade dessa “Terra Prometida” ou dessa “Ilha de São Brendan”, como a chamavam os historiadores medievais, alguns aceitando a ideia de a figura de São Brendan haver sido formada com base nas descrições de várias viagens realizadas por pessoas diversas, em épocas várias, desse modo explicando-se a longa duração daquela que foi descrita na Navigatio com tantos preciosos detalhes, enriquecendo, sobremodo, a literatura frequente nos tempos medievais sobre ilhas imaginárias que se achavam perdidas no oceano, impossíveis, dada a sua condição de ideia pura, de vir a ser encontradas.
REFERÊNCIAS E NOTAS
1 MORISON, Samuel Eliot. The european discovery of America: the northern voyages. A. D. 500-1600. New York: Oxford University Press, 1971, p. 103.
2 Idem.
3 Ibidem, p. 104.
4 Navigatio sancti Brendani abbatis. Trad. (para o inglês) de Denis O’Donoghue. In: Brendaniana. Archbishop P. F. Moran, 1893.
5 SELMER, Carl. Navigatio sancti Brendani abbatis from early latin manuscripts. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 1959. (Medieval Studies, XVI).
6 BURGESS, Glyn. The voyage of saint Brendan: representative versions of the legend in english translation, with indexes of themes and motifs from the stories. Exeter: University of Exeter Press, 2005.
7 GIUCCI, Guillermo. Viajantes do maravilhoso: o Novo Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 36.
8 Ibidem, p. 37
9 Ibidem, p. 37-38.
10 Idem.
11 ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial (1500-1800). 4. ed. Rio de Janeiro: Livraria Briguiet, 1954, p. 78.
12 ASSIS CINTRA. Nossa primeira história. São Paulo: Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1922.
13 COELHO, Latino. Vasco da Gama. Porto: 1882.
14 BARROSO, Gustavo. O Brasil na lenda e na cartografia antiga. 2. ed. São Paulo: Edições GRD, 2000, p. 149-153.
15 VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
16 SOUZA, Laura de Melo. “O nome do Brasil”. In: Nossa História. Rio de Janeiro, ano I, n. 6, 2004.
17 CANTARINO, Geraldo. Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
18 CAMPOS, Luciana de. “As raízes celtas do Brasil”. Disponível in: www.brathair.com.*
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Waldir Freitas Oliveira é historiador, ensaísta e conferencista, professor da Universidade Federal da Bahia, com vários artigos e livros publicados. Dirigiu diversas instituições, como o Conselho de Cultura do Estado da Bahia e o Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA. É sócio remido do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Desde 1987 ocupa a Cadeira nº 18 da ALB. Palestra proferida em sessão extraordinária da Academia de Letras da Bahia, na Sala Pedro Calmon, em cinco de dezembro de 2013.

Quatro Autores e Uma Cidade: imagens de Salvador no conto baiano

Em diversos contos de autores baianos da segunda metade do século 20, fxados, por exemplo, na antologia Panorama do conto baiano, organizada em 1959 por Nelson de Araújo e Vasconcelos Maia, encontram-se frequentemente elementos relacionados aos confitos, muitas vezes brutais, ocorridos em regiões distantes da capital, a exemplo de tragédias envolvendo índios, jagunços e tropeiros, retratadas por Adonias Filho em “O brabo e sua índia”, e a inevitável presença dos coronéis, para os quais a vida de míseros agricultores “de corpo amarelo e inchado” valia menos do que a das onças caçadas nas matas do Sul baiano, como em “A caçada do coronel”, de Camillo de Jesus Lima. Encontram-se, também, marcas vívidas de um tempo presente, numa selva urbana cuja selvageria traduzia-se no arbítrio da repressão política e da censura, na qual a caça passava a ser o homem comum, perseguido por policiais e delegados soturnos, como no Ariovaldo Matos de “A dura lei dos homens”.

Os Gerais São Sem Tamanho: Cartografias do sertão rosiano

Evelina Hoisel
Desde que apareceu na cena cultural brasileira, a vasta produção literária de João Guimarães Rosa tem suscitado uma série de indagações que perpassa diversos campos do conhecimento e contempla as interpretações mais díspares e antagônicas. Isso se deve à própria configuração paradoxal desses textos, em que “tudo é e não é”, pois “este mundo é muito misturado”, como afrma o narrador protagonista de Grande sertão: veredas (1967), Riobaldo Tatarana.

A Morte na Vida e Na Poesia de Castro Alves

Aramis Ribeiro Costa
Tendo vivido tão pouco, a morte acompanhou a vida e a poesia de Castro Alves. Não aconteceu apenas com ele. Álvares de Azevedo morreu aos vinte anos; Fagundes Varela, aos trinta e três; Casimiro de Abreu, aos vinte; e Junqueira Freire, aos vinte e dois. É preciso lembrar que falamos de meados do século XIX, uma época em que a medicina, essencialmente empírica, se encontrava muitas décadas distante dos conhecimentos e dos recursos dos nossos dias. Não havia antibiótico nem vacina. Morria-se com facilidade. E não apenas nas grandes epidemias, que, uma vez iniciadas, se alastravam com rapidez e descontrole, ceifando vidas aos milhares, ante a impotência angustiante dos poderes públicos e dos médicos, ambos desarmados. Morria-se por tudo. Morria-se de parto, de pneumonia, de desidratação, de pequenas infecções ou inflamações que não podiam ser debeladas. Morria-se a morte lenta e dolorosa da sífilis. E morria-se de tuberculose, fantasma soturno que acompanhava os indivíduos de forma silenciosa e persistente, seguindo, como sombra apavorante, em particular os desnutridos e os moços boêmios em seus prazerosos excessos. Na verdade, convivia-se cotidiana-mente, diuturnamente com a morte, e nem mesmo a realidade destruidora da violência urbana dos grandes centros contempo-râneos, dos assaltos, dos acidentes de tráfego, das drogas, das doenças degenerativas e das síndromes imunológicas de nossos dias podem dar uma ideia desse convívio macabro.

Edivaldo M. Boaventura – Oitenta anos do acadêmico

Discurso em homenagem ao octogésimo aniversário do acadêmico Edivaldo M. Boaventura, proferido em sessão especial da Academia de Letras da Bahia em 25 de março de 2014
Luís Antonio Cajazeira Ramos

Meu chanceler.
Estamos diante de um incômodo dilema. O que esperar de um discurso de celebração dos 80 anos de idade de alguém? Creio que todos pediriam ao orador que, de forma criativa e agradável, lembrasse em breves palavras a genealogia da pessoa festejada, suas raízes socioculturais, sua formação escolar, um pouco de sua vida privada e muito de sua vida pública, as escolhas acadêmicas, os caminhos profissionais, a produção intelectual, as inserções institucionais, as intervenções sociais, as realizações. Mas nosso homenageado é Edivaldo M. Boaventura. Eis aí o problema. Se eu for sumariar, apenas sumariar, listar as realizações do bem-venturoso confrade, inescapavelmente eu ocuparei ou mesmo ultrapassarei o tempo razoável pelo qual deve estender-se um discurso de qualquer natureza. Como contornar esse problema? Como vencer a encruzilhada? Sinceramente, não sei. Na dúvida, prefiro afastar-me da via meramente curricular; ignoro o caminho fácil de agradar os ouvintes com eventuais causos pitorescos de sua aventura de vida; preservo-me de seguir a oportunista pista de minha relação pessoal com o dileto amigo; e escolho avançar pela bem sinalizada estrada suavemente retilínea de sua rica, proveitosa e admirável biografia. Resumidamente, é claro, superficialmente, em pequenos saltos, até onde o fôlego nos conduza.

Tecnologia e Literatura

refRuy Espinheira Filho
Frequentemente me perguntam o que acho do livro eletrônico, se o livro de papel vai desaparecer etc. O que me impressiona inicialmente é o entusiasmo pelo livro eletrônico em pessoas que nunca gostaram de livros. Quando dizem, os olhos brilhando, que num objeto daqueles podem caber centenas, talvez milhares de livros, quem sabe uma biblioteca inteira, a vontade que tenho é de lhes perguntar por que estão tão encantados, já que jamais leem livro algum. Quando no curso de Direito, conheci certos estudantes que não liam nada, mas apareciam sempre com livro novo sob o braço. Nós os apelidávamos “sovacos ilustrados”, pois toda aquela cultura estava ali, nos sovacos, não na cabeça – muito menos na alma – deles. No máximo, liam as “orelhas”, para o caso de alguém lhes perguntar sobre o conteúdo da obra ensovacada. Com a novidade eletrônica, acredito que muita gente comprará o livro e não irá além de sair exibindo aos basbaques a brilhante tecnologia de seus sovacos.
Por falar em livros: leio Escritores americanos em Paris (1944-1960), de Christopher Sawyer-Lauçanno, onde há boas histórias que mostram como era visto o escritor na França. A vida no pós-guerra era difícil, havia longas filas para se conseguir alguma coisa com os cupões de racionamento. Então, um dia, para espanto do americano que a acompanhava, Gertrude Stein foi a um açougue e, ignorando a fila, caminhou diretamente ao balcão. Começaram os protestos, aos quais o açougueiro respondeu, aos gritos, justificando o atendimento a Stein: “Ela é uma escritora!” E pronto – porque em Paris o tempo dos criadores era sagrado, não devia ser gasto em vulgaridades. Também certa vez o romancista americano negro James Baldwin foi parado pela polícia. Estava sem documentos, mas levava exemplar de romance que acabara de publicar e mostrou o retrato seu que havia no volume. Imediatamente a atitude hostil dos policiais desapareceu: “Ah, o senhor é escritor! O senhor pode ir.”
Coisas impensáveis entre nós, é claro, por mais tecnologicamente ilustrados que possam ser os sovacos…

Poema para João Ubaldo Ribeiro

fmFlorisvaldo Mattos
Acordei hoje mais para o risonho e o circunstancial, talvez pelo belo dia de sol primaveril e resolvi perpetrar um poema evocativo de momentos de infância, ao me lembrar de uma frase de João Ubaldo Ribeiro, dita em um entrevista há décadas, resolvi dedicar-lhe, homenageando-o, desde que ele tomará posse como membro da Academia de Letras da Bahia, no próximo dia 22, e agora resolvi compartilhá-lo como os amigos do Facebook, tanto os que cultivam memórias da infância quanto os que amam o futebol, amor que às vezes está no sangue. Segue abaixo o poema com a dedicatória.
TARDE NA VÁRZEA
A João Ubaldo Ribeiro
(“Não existe poesia sem infância”, ele disse)
A chuva há de passar… De quando em quando,
Um alarido vem pelo ar, fugidio.
Na tarde bruxuleante, além do rio,
Teles e Caboclinho estão jogando.
Não posso ver; a chuva me atrapalha.
Vestindo sedas, clamo os ares, rogo.
Avanço a rua. Minha tinha ralha
(Nada me ajuda): “Pare aí, é só um jogo!”
Raiva. Bato três vezes na madeira.
Será que vai chover a tarde inteira?
Digam como lá estão os litigantes.
É agosto, sim, e chove sem parar.
Dentro, o menino quer comemorar
Logo. Atlanta e Palestra, dois gigantes.
Salvador, manhã de 10/11/2012.



O mensalão como espetáculo

poatualPaulo Ormindo de Azevedo
A universalização da TV e de outras mídias criou o que autores como Guy Debord e Frederic Jameson chamaram de cultura do espetáculo, que domina a vida politica, econômica, social e cultural do mundo. É preciso ter consciência critica deste fenômeno. Por esta razão, a maioria dos juízes norte-americanos não permite a entrada de câmeras fotográficas e vídeos nos tribunais para evitar uma pré-condenação dos réus. O que estamos vendo no caso do mensalão é a transformação de um julgamento do STF em um espetáculo televisivo que disputa o ibope com o desnudamento da nossa classe média no lixão da Avenida Brasil. Não falta inclusive um super-herói de capa e espada lutando contra as forças do mal e a figura do bom ladrão arrependido. O juiz que não votar pela condenação dos réus, independente da consistência das provas, corre o risco de ser considerado conivente com a corrupção.

Para além da questão moral, há neste episódio uma questão politico-institucional gravíssima. O nosso sistema politico é estruturalmente corrupto. Este fato decorre do atual regime politico híbrido com uma Constituição parlamentarista, onde tudo deve passar pelo Congresso, e um Presidencialismo onde o chefe de estado, eleito por outra via, não tem o apoio do Legislativo. O conflito se estabelece pela origem diversa dos poderes Legislativo e Executivo. Assim o presidente reina, mas não governa, a menos que coopte uma base parlamentar descompromissada e infiel.

Tal sistema foi instituído por Sarney ao vetar o parlamentarismo e restaurar a figura do presidente absoluto, sem fazer as adaptações constitucionais necessárias. Ao contrario do parlamentarismo autentico, em que o primeiro-ministro é eleito pela coligação que lidera o parlamento, ou de um presidencialismo bipartidário, como o norte-americano, onde o presidente é eleito indiretamente por delegados dos partidos, o que garante certa unidade entre o Legislativo e o Executivo, o nosso regime hibrido com 30 legendas de aluguel é literalmente um mercado.

No nosso regime político bizarro, batizado por Sergio Abranches de presidencialismo-de-coalizão, o chefe de estado para governar precisa do “toma lá, dá cá”, que mão se faz só com reais e dólares, mas com cargos, liberação ou retenção de emendas parlamentares e participações devidas, financiamentos de obras etc, tidos como “normais”. Destas praticas, inclusive com compra de votos em dinheiro, foram acusados os Presidentes Sarney, para prorrogar o seu mandato; Fernando Henrique Cardoso, para instituir a reeleição e fazer privatizações turvas, e Lula, para aprovar leis de seu programa político. Não vou julgar aqui o mérito de tais ações, senão analisar as razões da pratica.

Nesse sistema, os verdadeiros operadores da governabilidade são os chefes da casa civil e coordenadores políticos. As mesmas acusações que pesam sobre José Dirceu e José Genoino de compra de votos sofreram Eduardo Jorge e Sergio Motta, o Serjão, na administração de FHC. Mas Fernando foi mais vivo evitando uma CPI e lavando as mãos ao criar o CGU. Aliás, o inventor do engenhoso Valerioduto é o ex-governador de Minas Gerais, Eng. Eduardo Azeredo, fundador do PSDB.

Fica evidente que a compra de votos é resultado de uma crise estrutural de governabilidade, que se manifesta também pelo abuso de Medidas Provisórias, que só no Governo de FHC chegaram a 5.491. Nem mesmo a base governista renuncia a cobrar pedágio e vantagens. No processo em julgamento do presente mensalão estão arrolados políticos do PT, PP, PL, PTB e PSB. O comercio do voto continuará a existir, enquanto persistir o regime politico atual.  Quanto irá custar, de forma explicita ou implícita, a votação das reformas que o País necessita? Se não quisermos ver a reprise deste filme, devemos julgar e condenar o sistema politico corruptor vigente. Tudo mais é circo. Mas tal reforma institucional só pode ser feita por uma Constituinte independente do atual esquema político-partidário, pois seus agentes não abrirão mão do cheque em branco que têm hoje para negociar a governabilidade.

CESA – modelo de educação

img13Joaci Góes
A Bahia já tem um modelo de escola pública para servir de base ao indispensável processo de transformação autossustentável de nossa realidade social, política e econômica, através da educação, permitindo que o País mude o curso da barbárie atual que ameaça naufragá-lo, e siga na direção de um futuro compatível com as legítimas aspirações de civilidade do seu povo.
Refiro-me ao Centro Educacional Santo Antônio – CESA, braço pedagógico das Obras Sociais Irmã Dulce, localizado em Simões Filho, ora com cerca de setecentos alunos, oriundos dos segmentos mais carentes de nossa periferia social. De fato, nada há na Bahia em matéria de ensino público básico e fundamental equiparável em qualidade ao que ali se realiza. A existência dessa unidade de ensino, que obedece ao modelo da Escola Parque, preconizado por Anísio Teixeira, simboliza a esperança de sobrevivência do sonho redentor do povo brasileiro concebido por aquele excepcional educador.
Na semana passada, ao lado da escritora de livros infantis, a acadêmica Gláucia Lemos, participei de um café literário no CESA, precedido de uma solenidade que emocionou a quantos ali se encontravam, pela nítida percepção do papel profundamente transformador que o CESA opera na vida daquelas crianças, dos seis aos dezessete anos, afastando-as das ameaças que comprometem seu futuro e conduzindo-as pelas estradas largas de promissora cidadania: crianças banhadas, bem vestidas, bem alimentadas e visivelmente encantadas com as novas possibilidades que se levantam à sua frente.
Mais do que o Hino Nacional que entoaram a uma só voz, com a mão direita orgulhosamente espalmada sobre o peito, emocionou-me o Hino do Município de Simões Filho, de Fábio Temeson e Adalto Benedito, que entre outros versos sustenta “Simões Filho cidade esplendor… És o orgulho de nossa nação… Terra bendita de céu estrelado.. … és formosa, mais amada do Brasil… … Simões Filho cidade de luz.. … És o orgulho de nossa nação”.
Não pude evitar as lágrimas, ao constatar o enorme contraste entre as benfazejas expectativas daquelas crianças, prometidas no hino, e a dura realidade assoalhada nos horários mais nobres da TV que aponta o município de Simões Filho como o mais violento de todo o Brasil, fato que magnifica o trabalho pedagógico que ali se realiza sob a batuta das professoras Solange, Rita Fróis, Rita Assis e a líder Flávia Rosemberg, todas sob o comando maior de Maria Rita Lopes Pontes, sobrinha e continuadora da obra inexcedível de Irmã Dulce. É Preciso prestar atenção: a melhor escola pública da Bahia está localizada na cidade mais violenta do País. É preciso dizer mais?
Sou portador de um convite aos secretários de educação da Bahia e de Salvador, respectivamente, Osvaldo Barreto Filho e João Carlos Bacelar, para conhecerem o trabalho pedagógico que o magistério do CESA realiza. Quem sabe se alguma coisa de bom não será extraída para ajudar Salvador e a Bahia a saírem da rabada em que se encontram no continente americano em matéria educacional?
Bastam determinação e competência.

Maré Alta

glGláucia Lemos
Foi entrando pela água adentro e alcançou a coroa. Sentou-se e esperou morrer. A maré estava baixa. No dia seguinte era março. À noite a maré subiu. Chegou até a coroa e cobriu o corpo da mulher. Os peixes roeram-lhe as pálpebras e os siris entraram-lhe pela boca. E nunca mais ninguém mariscou na coroa.
Contam que quando ela atravessou a praia, ainda um filete de sangue escorria pelas suas pernas. E foi deixando um rastro vermelho pela água tranqüila.
Não era igual a mãe que nunca aquietava calada, não trocava camisa para brigar. E quando faltava de que reclamar, falava sozinha. Não era. Comia calada. Assuntava o que se passava em volta, mas calava. A mágoa crescia por dentro que nem maré de março.
A mãe tomou conta da criança. Era um menino quieto que tinha nos olhos a expressão tranqüila dos homens que passam a vida no mar. Diziam que era filho de um marinheiro que emprenhara a mulher e se fora. Ninguém sabia ao certo. Pureza era calada. Uma pomba sem fel – dizia a mãe, querendo engrandecer. Uma mosca morta – acrescentava quando queria destratar. Ela não dizia nada. A barriga crescendo e ela calada. Ouvindo tudo sem opinião nem resposta. Ignorando as perguntas como se não fossem com ela.
Mas que o menino tinha aqueles olhos cheios de paz, isso ele tinha. Jerônimo foi crescendo como os outros meninos. Comendo papa de farinha dada na boca pelos dedos da avó, e arrastando a barriga cheia de lombrigas pelo chão batido do casebre. A cara suja de terra. Indo à praia enganchado na anca da avó, à cata de mariscos. Crescia acostumado com a velha que lhe cuidava sem muito carinho mas também sem maus-tratos. Ás vezes, já grandinho, saia caminhando até o cais, ao anoitecer. Alguma coisa por dentro traindo um vazio. Uma necessidade estranha, uma angústia, e ficava sentado nas tábuas do cais, olhando a coroa ali próxima, ou o horizonte distante. E espantando os mosquitos das pernas encardidas. Horas a fio.  Recolhido, calado, quieto. Depois a avó o procurava e vinha a bronca.
– Tá de calundu outra vez. É que nem a mãe
Quando embirra de ficar calado ninguém arranca uma palavra.
Outros diziam que era filho do prefeito. Pureza  lavava para a família do prefeito e todo fim de semana lá ia levando a trouxa de roupa. Os olhos sempre úmidos e brilhantes. E a boca carnuda, que nem fruto de dendê maduro, sempre calada e sisuda. Quando dona Olga viajava para o sítio, ela entrava pela casa da patroa e recolhia a roupa suja das crianças. Fazia tanto tempo que lavava para eles, que era como se fosse da casa.
Quando botou barriga alguns começaram a falar que bem poderia ser filho do prefeito. De alguma daquelas segundas-feiras em que se demorava na casa, recolhendo as roupas da semana. Ela não dizia nada. Caminhava normalmente pelas ruas, o vestido empinando na frente, levando e trazendo as trouxas, ou mariscando siri e papa-fumo pela praia, sem esconder a gravidez. De ninguém. Nem mesmo da mãe. Nem mesmo de Ernesto.
A mãe brigando. Como brigava por tudo.
– Tá prenhe. E quem é o pai? Não tem vergonha do marido paralítico em cima da cama? Penando que nem um desvalido há tantos anos?
Pureza calada. E a velha.
– Não tem mesmo é vergonha na cara.
A mulher foi até a porta do quintal. Ergueu o ferro a carvão e soprou forte. As brasas estalaram e as faíscas saíram pela boca do ferro. Voltou à mesa de engomar. A velha continuava na ladainha.
– Não pode viver sem homem, é? Ernesto é paralítico mas ainda não morreu, não. Não tem vergonha de passar na cara desse infeliz com a barriga de outro homem?
Pureza esticou na mesa o vestido branco de dona Olga. Desfez uma ruga. Passou o ferro com cuidado.
–  Vai, descarada, diga aí. É do marinheiro? Bem feito que ele se picou no mundo. Agora, se não é do marinheiro, heim? Se é de seu Abílio… rum… Tá pensando que ele vai lhe dar alguma coisa? Vai dar mesmo é um pontapé na bunda pra tu tomar vergonha. Coitado de Ernesto, esse, sim, é um infeliz.
A mulher calada. O ferro indo e vindo em suas mãos, por cima da roupa da mulher do prefeito. Não levantava a vista do trabalho. Em seguida, arrumou as peças dentro de um lençol bordado e prendeu os lados com presilhas. A barriga grande, os movimentos lentos. O corpo pesado. Entrou no quarto onde Ernesto dormia. Olhou em cima do estrado o que restava do marido. Um corpo insensível, parado, sequer movia os braços, mal conseguia falar.
Amara aquele homem, sim. Tinha-o amado muito. Tinha sido tempo bom, aquele. Moços os dois, cheios de vida. Depois, havia seis anos, ficara morrendo com ele na sua infelicidade. Acompanhando sua morte lenta em cima da enxerga. Ela, porém, estava viva! Viva! Será que a mãe não entendia isso? Por que teria que morrer junto com o homem? Estava viva! Viva! Deus do céu…
O filho estremeceu na barriga. Olhou outra vez para o homem. E chorou. Não sabia bem por  quê. Mas chorou naquela noite como nunca.
O homem mais velho que a própria idade, nada tentava perguntar. Encolhido em seu estrado, as pernas mortas, como de resto, quase todo o corpo, enrolado na coberta de chitão lavadinha e remendada por Pureza. Reduzia-se à sua solidão de paralítico. Desde o desastre da Leste, havia seis anos, vivia ali, como um bicho de estimação. Pureza dava-lhe o alimento à boca e o banho no colo como se fosse um bebê. E o homem foi mirrando, murchando, como um maracujá que enruga. E parecia um ancião. As mãos encurvando, as pernas secando.
Nada tentava perguntar à mulher. Para quê? Não tinha de que se queixar. Ninguém sabia se sentia ciúmes do vigor de Pureza nos seus trinta e oito anos cheios de sensualidade. Ninguém o sabia. Ele só olhava para ela longamente, e, quando seus olhos a surpreendiam alguma vez parada à porta dos fundos, os olhos na folhagem agitada do quintal ou no pedaço de mar que podia avistar, seu coração enchia-se de piedade pela mulher. Ainda moça, cheia de fogo, amarrada a ele que nada mais tinha a lhe dar. E, sem reclamar, calada como era e sempre fora.
Viu a  barriga da  mulher crescendo, e ela sem alterar os seus hábitos, sem evitar encará-lo, sem diminuir seus cuidados e sem os aumentar. Como se nada estivesse acontecendo.
O coração do homem enchia-se de angústia e ele fechava os olhos quando ela entrava no quarto e, quieta, como era seu jeito, banhava-o, alimentava-o, perguntava-lhe se precisava de alguma coisa.  Solícita como antes, como sempre fora.  Ele não tinha coragem de lhe perguntar por nada. De nada lhe cobrar. Seis anos… Era muito tempo.
Quando Jerônimo  foi crescendo, Ernesto ficava observando. O cabelo crescia clareando. E a pele morena igual à de Pureza, queimada ao sol e ao salitre, fazendo contraste com o cabelo claro, lisão, que nem cabelo de milho novo.  Reparando mais, o cabelo era bem como o cabelo de seu Abílio, o prefeito. O marinheiro ele não conhecera. Diziam só que passara uns dias, poucos, e se fora, só falavam dos olhos calmos do menino, mas ele não tinha como comparar. E a mulher, teimosa do jeito de um burro, nunca dissera nada. Morreu como viveu. Calada. Guardando só para si mesma, seus gostos e seus desgostos.
O menino crescendo como os outros meninos, roubando mangas pelos sítios. Pulando do cais, nadando nas águas da bacia, fazendo carreto no porto, vendendo mariscos aos veranistas, em prato de esmalte. Do pai e da mãe não perguntava. Também, o tempo passando, o povo esquecendo. Ninguém  se lembrava mais de comentar do prefeito ou do marinheiro. Só as mulheres mais velhas, olhando a coroa, de vez em quando falavam da mulher que procurara sua morada na areia do mar. Falavam em assombração, Ninguém mais mariscou na coroa, por isso. Por mais baixa que estivesse a maré.
Um dia Ernesto morreu. Amanheceu morto. O corpo pequenino que se fora reduzindo pela longa paralisia. A velha fechou-lhe os olhos enquanto dizia:
– Deus te tenha no seio da santa glória.
E, noutro tom:
– Descansou.
Durante o velório, Jerônimo, quieto, de olhos compridos ficou ainda mais calado. Não sabia  porque, uma garra lhe apertava o peito. Nunca tinha visto uma pessoa morta. Nunca ligara muito para aquele homem enfurnado em um quarto que exalava cheiro morrinhento. A avó levava-lhe mingau, três vezes ao dia, lembrava-se bem. Mas, agora que morrera é que lhe parecia real. E fazia-o sentir que, um dia,  também fora real a mãe que  nunca vira. Que lhe fora, até então, como Deus, alguma coisa que sabia existir, mas sem noção exata, e sem se importar muito com isso.  Ficou olhando Ernesto, de uma palidez arroxeada, naquele caixão de tábuas. A curiosidade foi despertando, e, pela primeira vez, perguntou à velha:
– Vó, como foi que minha mãe morreu?
A velha, numa surpresa, pôs no rosto do menino os olhos miúdos, e demorou-se com o olhar sem brilho, para encontrar a palavra na voz cansada. Depois, segurou a  mão do neto  e arrastou os chinelos até a porta do casebre. O braço esticado apontou a coroa.
– Tá vendo ali? Onde ninguém quer ir mariscar? Foi ali. Quando ela sentiu a dor, era finzinho de fevereiro. Você demorou muito para nascer. Ali, naquele quarto, Ernesto chorava, coitado, soltando uns gemidos horríveis, de quem quer falar alguma coisa mas não consegue senão grunhir. Ernesto gostava muito de sua mãe. Toda vez que ela gemia,
a cara dele ficava que nem a cara de um cão danado. No outro dia, você nasceu… Eu não quis mais nem olhar para a cara dela.
Foi nessa hora que a mulher se levantou da cama onde tinha acabado de parir, e entrou no quarto do homem. E viu a máscara de dor no rosto do marido. Seus olhos mais expressivos à medida que ia perdendo o uso da palavra, não tinham mais a mansidão habitual, o ar
de agradecimento e de resignação. Havia nos olhos de Ernesto uma mágoa tão funda e tão gritante que contraía os músculos da face e o tornava terrível de se ver. Com aqueles olhos transtornados ele olhou a mulher no rosto demoradamente. Mas a voz parada, sem poder falar mais nada. Que nem maré morta.
Pureza sentiu a mágoa do marido no seu próprio peito. Dentro dela o coração cresceu, cresceu até que estourou.  E ela cuspiu sangue. E seus olhos choraram sangue.
Foi aí que Pureza saiu e foi andando até a praia e entrou na água, Era fim de fevereiro. Ficou sentada no alto da coroa até que chegou março e a maré cresceu e cobriu tudo. E ninguém viu mais nada.
Jerônimo soltou a mão da avó e correu para  a praia. A maré estava alta. O menino parou na fita de espuma onde o mar  se encontrava com o pedaço de praia que a maré grande ainda deixava. A água fria lambendo seus pés maltratados, de unhas encardidas. Olhou para a água. Viu à sua frente um rastro de sangue que se mexia com o movimento do mar. Como uma estranha estrada que se abria e levava à coroa.
Fitos os olhos modorrentos, resoluto o corpo raquítico jogou-se à água e seus braços magros começaram a nadar seguindo o rastro.
Mais uma vez era março. E havia peixes e siris habitando a coroa.

Os prefeituráveis e a cultura

img13Joaci Góes
A Academia de Letras da Bahia receberá na noite do próximo dia 26 os candidatos a prefeito de Salvador, para conhecer o que pensam fazer, se eleitos, em favor da cultura na terceira maior cidade do País, reconhecidamente relegada a plano secundário, como se infere, até, do percentual de 0,2% do orçamento municipal a ela destinado, quando capitais brasileiras há que destinam percentual muitas vezes maior, ao mesmo fim, apesar de, nem de longe, terem as tradições culturais da cidade berço do Brasil.
A iniciativa pioneira da Academia, ao acolher, sob a liderança do presidente Aramis Ribeiro Costa, proposta do mais novo acadêmico, o poeta Cajazeira Ramos, que mediará o encontro, tem tudo para ser exitosa, seja pelo seu caráter apartidário, seja pela qualidade do conjunto das pessoas envolvidas na formatação do conteúdo e da forma do encontro. Nada menos de duzentos respeitados profissionais ligados ao mundo da cultura, divididos em 15 grupos, trabalham para produzir uma proposta de gestão cultural que poderá transportar Salvador ao elevado plano de onde nunca deveria ter sido rebaixado. O novo prefeito de Salvador receberá um programa de ação capaz de restaurar importantes práticas e políticas culturais negligenciadas, para grande prejuízo dos nativos e visitantes no usufruto do incomparável potencial da Soterópolis.
É uma trágica ironia que, enquanto o mundo assiste a um notável crescendo do turismo cultural, tenhamos permitido, por um misto de incompetência e insensibilidade, que essa extraordinária dimensão de nossas possibilidades ficasse à margem do papel gerador de polpudas divisas que respondem pela grandeza de sítios que não podem rivalizar com os marcos históricos que fazem de nossa terra um museu a céu aberto, somando-se às incomparáveis belezas naturais compostas pela amenidade da temperatura, a brisa permanente, a cor do mar e a intensa claridade tropical. Só muita falta de imaginação e preparo para não compreender que o carnaval, por maior que seja o seu peso, é, apenas, um evento sazonal que em nada interfere com uma sólida programação que, bem articulada e difundida, manteria um fluxo regular e expressivo de visitantes ao longo de todas as semanas do ano, além de proporcionar lazer de qualidade aos moradores. É inegável, por outro lado, como já denunciamos em outras ocasiões, que Salvador cedeu ao fácil apelo do turismo sexual, a exemplo de outras cidades do Nordeste, como Fortaleza, que, segundo Ciro Gomes, se transformou num “puteiro a céu aberto”.
Salta aos olhos que, pela sua intensidade e abrangência, os fastos culturais que fazem de Salvador uma das cidades de maior tradição no Continente Americano não podem ser tratados por uma fundação, apenas, a Gregório de Matos, apêndice de uma secretaria da importância da de Educação, Esporte e Lazer, já absorvida pela enorme responsabilidade de retirar Salvador da rabada em que se encontra, penúltimo lugar, em matéria de qualidade de ensino, entre as vinte e sete capitais brasileiras, ligeiramente acima de Maceió. Quem quer que tenha um mínimo de percepção mercadológica compreende que nada é de retorno pecuniário tão certo como investimento em cultura, fato de que todo o mundo é prova. Isso explica porque as pinturas dos grandes mestres alcançam fortunas colossais, na medida em que sirvam de motivação para manter o visitante por alguma fração média de tempo adicional, expondo-se ao aumento do consumo de bens e serviços, gerador de receita tributária.
O tratamento secundário que a cultura em Salvador vem recebendo decorre, inegavelmente, portanto, de uma perversa associação entre a estreiteza de visão e o aparelhamento da administração pública para atender a compromissos decorrentes da licenciosidade partidária que estimula apoios políticos necessários a assegurar a governabilidade em troca da mais desabrida pilhagem do Erário.
Penso que esta oportuna iniciativa da Academia de Letras da Bahia vai fazer história.

A cidade como cultura

poatualPaulo Ormindo de Azevedo
A cidade não é apenas o palco das diversas linguagens artísticas: a arquitetura, a musica, o teatro, o cinema e as artes plásticas. Ela própria é cultura material e imaterial. Material, pelo traçado de suas ruas, praças, fontes e parques, pelo tratamento de suas frentes marítimas e espelhos d´água. Imaterial, por suas relações sociais, tradições cívicas e religiosas, por suas festas e jogos. A cidade é um arquivo histórico, como diz o espanhol Chueca Goitia, porque nela se guardam construções de todas as épocas.  A história das artes se confunde com a história da cidade, segundo o critico de arte e ex-prefeito de Roma, Carlo Argan.
Salvador tem uma cultura urbana riquíssima, pela sua implantação em acrópole, pelo seu acervo arquitetônico e artístico, pela sua história social, pelo seu sincretismo religioso, pela alegria de seu povo, por suas festas ao ar livre, pelo requebrado de suas baianas, por sua música e cozinha típicas. Mas a partir do início da década de 1970 este patrimônio cultural e econômico vêm sendo impiedosamente pilhado e destruído pela especulação travestida de progresso, pela incompetência e conivência de nossos gestores urbanos e pela pusilanimidade de todos nós soteropolitanos, que não soubemos reagir a tempo.
Finalmente, quando quase tocávamos o fundo do poço, a Academia de Letras da Bahia, com o apoio de artistas e produtores culturais soteropolitanos, resolve reagir cobrando dos candidatos a Prefeito um compromisso com a nossa cultura, o dar um basta na destruição de nosso patrimônio cultural e ambiental urbano e incentivar à criação cultural, como ocorreu nos anos 60, quando fomos a vanguarda da arte brasileira.
É preciso que o nosso futuro prefeito compreenda que a par de sua importância identitária a cultura representa 7% do nosso PIB. No contexto urbano este percentual é ainda maior e para que ele cresça é preciso que as prefeituras tenham politicas e invistam na cultura. Em meado da década de 70, Nova York enfrentou uma crise financeira e de gestão semelhante à de Salvador. A companha do novo prefeito para recuperar a cidade foi recriar a autoestima de seus cidadãos com o slogan I love New York.
Enquanto a Prefeitura do Recife aplica quatro por cento do seu orçamento em cultura e transformou o Centro Histórico em um polo de informática, a nossa não chega a investir meio por cento e não tem nenhuma politica para o Pelourinho. Não obstante os esforços dos últimos presidentes da Fundação Gregório de Mattos, não é possível fazer milagres com tal orçamento.
O grupo de artistas não quer congelar a cidade, mas é preciso acabar com a farsa que basta preservar o Centro Histórico para os turistas “e que tudo mais vá para o inferno”. Se fosse assim, não teríamos mais Paris, Barcelona, Florença, San Francisco e as cidades mineiras. É preciso compreender que a recuperação do Pelourinho não pode ser uma operação puramente construtiva, senão essencialmente urbanística e isto e uma competência exclusiva do município.
O que a Prefeitura fez pelo Pelourinho nos últimos vinte anos?  Um dos maiores flagelos dele é a falta de mobilidade e acessibilidade. No entanto o Plano Inclinado Gonçalves está parado há quase um ano e o Elevador Lacerda funcionando precariamente. Precisamos ter um órgão cultural com status de secretaria, um conselho cultural nos moldes do recomendado pelo Estatuto da Cidade e incentivos fiscais para a cultura. Sem isso a Prefeitura não pode exercer as prerrogativas constitucionais de preservar e incentivar a cultura.
O encontro sugerido e coordenado pelo acadêmico Antonio Carlos Cajazeira está marcado para o próximo dia 26, à noite, naquela Academia. Não será um debate nem um embate para não constranger os candidatos, senão ouvi-los sobre o que pensam sobre a cidade. O confronto será subjetivo, na cabeça de cada ouvinte-formador de opinião. No final da sessão será entregue a todos um documento do grupo com sugestões. A recuperação de Salvador passa inevitavelmente pelo resgate da autoestima dos soteropolitanos e isto não se consegue sem reforçar a cultura urbana.

O livro de Helena – Epifanias, falas e falares

alefAleilton Fonseca
Prefácio ao livro Falas e Falares. Ilha de Santa Catarina: Editora Mulheres, 2011. 160 p.
 Este é um livro de epifanias, falas e falares. É um livro de Helena.
Nos seus minicontos tão leves e tão instigantes, a escritora Helena Parente Cunha revela mais uma de suas múltiplas faces criativas. Sua obra nos oferece poesia, ensaio e ficção, em páginas admiráveis de inventividade, senso crítico, análise de situações complexas. Em geral, suas personagens deparam-se com dilemas, traumas e tensões, mas estão sempre em busca de saídas, tentando alcançar a superação através do auto-conhecimento. As vozes narrativas assumem discursos de perquirição, a fim de atingir o estado de compreensão dos fatos vividos, para daí engendrarem um modus vivendi capaz de proporcionar equilíbrio existencial, através da conscientização de sua própria condição no mundo. De fato, os seus enredos são fortes, consistentes e reveladores. O seu leitor depara-se com vozes decididas a investigar e instigar o mundo, em busca de um conhecimento mais profundo do ser.
Helena Parente Cunha é surpreendente a cada livro. Ela surpreende porque inventa formas, cria modos narrativos, articula sintaxes dinâmicas, estabelece nexos inusitados, levando a narrativa contemporânea a se movimentar para além de estruturas já estabelecidas. Neste livro, a surpresa vem na forma de uma prosa espraiada, distensa, como um agradável bate-papo com o leitor, de forma leve, ágil, certeira, prendendo a atenção e fazendo refletir, mas sem nenhuma dor. Pode-se, então, refletir sobre o mundo e a vida com prazer. A narradora, em passagens agudas, propõe refletir sobre as formas de acolhimento do outro. Seus diálogos demonstram a elegância da aceitação da condição do outro, envoltos em seu cotidano, em sua aparente simplicidade. A narradora os surpreende e os apanha em pleno ato de existir, simplesmente existir, satisfeitos com o ato extremo de existir.
Os textos são curtos, bem cerzidos e arrematados em poucas linhas. Em cada um deles, em apenas um ou alguns parágrafos, tudo se resolve. De maneira simples, mas com uma convulsão de sentidos a todo vapor, à flor da pele, num apelo à sensibilidade do leitor meio distraído ou mais arisco. Reverbera em cada texto, o tom contínuo e sutil da reflexão sobre a condição humana, vislumbrada através de detalhes do viver cotidiano. São sinais que costumam passar despercebidos. Uma vez colhidos pela criação da autora, constituem situações inusitadas e ricas de significados.
Essa prosa demonstra uma densidade lírica inescapável, e permite ao leitor garimpar frases que se alongam sonoras, vibrantes, cutucando a sua imaginação, com sua instigante simplicidade. Assim, a voz narrativa nos ensina, com sabedoria, que “as árvores, quanto mais velhas são, mais jovens serão”. Eis aí uma dialética de tempo que trinca o senso comum e nos faz pensar a existência da árvore sob um plano filosófico que se estende à reflexão em torno da própria vida humana.
O que são esses textos? São relatos, passagens, flashes, imagens, percepções, poemas, crônicas, mini-contos… São tudo isso e muito mais: são evanescências verbais. São epifanias do cotidiano, que surpreendem ao suplantarem a lógica comum do entendimento usual, desnudando os sentidos escondidos nas dobras da moldura da vida comum. Pela saborosa ironia do cotidiano, percebemos, graças à perspicácia da narradora, quem é a “fofurinha daquele papai incontrolavelmente antigo”. E descobrimos, pelo olhar da narradora que: “deitadinha nos lençóis bordadinhos, pelos cor de mel colhido por jovens abelhas, a cachorrinha do papai sorria, vestidinha de repentino branco”.
As tiradas poéticas percorrem os relatos, dando-lhes uma densidade lírica que se mantém em alta todo o percurso do livro. Ao falar do “Ano novo”, a narradora nos brinda com uma imagem evocativa que nos faz viajar na memória em busca de uma experiência semelhante. Então, aí somos agraciados por uma percepção singular diante da vida acontecendo. Eis o que revela a narradora, de forma lapidar: “A lua flutuava na iluminação transparente daquele azul. E nós flutuávamos acima do chão coberto de neve.” Os leitores flutuamos juntos, através da página coberta de palavras que desvendam enigmas, mas sem causar barulhos. Assim, mais adiante, aprendemos que: “os canteiros do jardim se dançavam em pétalas e gotas de sol quando ela vinha com suas águas e cuidados”.
A vida é a matéria-prima desses registros de experiências dos viveres, em seus momentos de extrema revelação de sentidos imperceptíveis a olho nu, e envolto em mistérios. O tempo, em sua continuidade indelével, mas tem suas fases delimitadas, que podem ser percebidas em “três tempos simultâneos”, encarnados, por exemplo, em três mulheres, cada qual vivendo seu ofício de plantar e colher amor, cada qual de seu jeito. E a voz narradora confirma isso, ao surpreender as personagens no tempo tríduo de suas vidas paradigmáticas: “Entre desfiladeiros e promontórios e oscilar de cortinas e transparências, a avó, a filha e a neta, no embalo da tarde e no ritmo de seus namorados.”
No ritmo do andar descalço pela areia da praia, essa prosa junta e ordena achados de extrema delicadeza e fina sensibilidade. Assim, as pessoas/personagens, assim as frases/versos que as nomeiam e as descrevem. Tudo aqui é linguagem instaurada que dá vida e valor ao que nomeia e reconhece. Assim, as simplicidades, nas quais a vida se mostra pulsante e vivaz. Assim, “Jeremias na praia de Guarajuba”, simplicidade que salta aos olhos e às palavras. Adiante, a narradora percebe-se como parte do sonho de vida plena, no texto que narra. Ela é voz que se narra a si mesma, entidade ficcional que se instaura naquilo que narra, ao afirmar de si: “Caminho pelo chão de água e algas e conchas e escamas. Beira móvel de ondas sobre e sob meu passo derramado de brilho solar. Barulho fresco de espumas e areia em tão cedo esta manhã de domingo”.
No mesmo ritmo, no mesmo acorde, há olhos para perceber “O velho da areia”. E a narradora indaga: “Vocês sabem onde estou agora? As areias da praia de Guarajuba identificam meus pés começados no riso das espumas e resolvidos na caminhada molhada até a última curva junto ao coqueiro de seu Samuca”. Quanta generosidade nos chamar para dentro desse universo! A autora nos oferta um lugar-poema que se torna real em palavras e passa a existir em nosso mundo construído através do texto lido e acolhido ao terreno da imaginação. De fato, como uma personagem de fábula, queremos também imergir na percepção da vida natural, à beira-mar, habitantes das areias… E queremos também acender a nossa vela pra Xangô e, sobretudo, queremos dar muita risada com seu Samuca.
No ritmo calmo das ondas do mar, essa prosa é areal de descanso e pensamento. A vida que a gente imagina segue no ritmo das ondas da praia de Guarajuba. É uma continuidade que não tem ponto final, mas apenas pausas de vírgula entre um acontecer e outro… conforme lemos nos textos de Helena, senhora e vivente dos areais de Guarajuba.
Nestes textos curtos há diálogos. E o diálogo é franco, leve, bonançoso; é cura para leitores carentes de boa prosa e maresia, à beira-mar. Por isso, não há marca de silêncio em volta dessa escrita.  Aqui e acolá, a narradora dialoga, troca frases, permuta sentidos, cruza percepções e sutilezas que dissolvem as diferenças. Ela dialoga com personagens simples; um barraqueiro, um carregador, uma vendedora de cocadas; os motoristas de táxi, todos viventes, protagonistas e portadores de histórias, donos de suas trajetórias peculiares, posseiros de significados particulares da vida humana.
Estes textos são relatos de memórias – vividas e inventadas. São invocações de palavras e imagens que se aliam para traduzir a semântica das marcas de um tempo vivido e assistido, que enfeixam sentidos e afetos num mesmo tecido de inventários de efemeridades e percepções cotidianas. Enfim, são fotografias afetivas em que: “Fluxos e melodias nos integravam quando ele ria e em nós se ouvia e se sorria e em nós de que de qual de onde que de alegria”.
E, de repente, aparece uma referência à Beatriz de Dante, como figura de alto valor afetivo e lírico. Mas a Beatriz dessa prosa é outra; inscreve-se no mundo da palavra, pois que é nascida e nomeada no aventurado ano de 2008. Conforme afirma a narradora, essa Beatriz, outra e mesma, é nascida “há exatamente doze meses e saibam todos e todas que me leem, a Beatriz de quem falo também possui o dom de tudo transformar ao seu redor”. Helena também.
A autora deste livro colhe gestos e palavras ao vento e à vida, para transformar tudo ao seu redor, dando novos sentidos ao que havia antes. O ponto final seria a instauração do nada? O texto então pode terminar só com vírgula, – nunca terminando – porque o passar da vida é ato contínuo, entre pequenas pausas. O ponto final é marca de silêncio in totum que, enfim, sequer pode existir. O que é dito está sendo dito, sem termo, ecoando na eternidade. O existir do universo é, em si mesmo, um som, uma sonoridade, no íntimo da qual repousam, inquietas, todas as vozes e as palavras ditas e dizíveis.  O mundo é verbo.
Esta autora Helena surpreende, muitas vezes, na justa medida da necessidade que tem o leitor de ser surpreendido e desafiado, sem, no entanto, se sentir desconfortável na luta da leitura.  Ah, lutar com palavras… refletia um certo poeta. Como a vida em si mesma, a escrita de Helena surpreende pela capacidade de ultrapassar a lógica prática dos seres, gestos e fazeres. Assim, é, talvez, para surpreender a si mesma, que, personagem inscrita no olhar agudo da narradora, “a mulher refaz a água das plantas e o alpiste dos pardais e se debruça mais em direção às criaturas de pé no ponto do ônibus e minhas retinas se acomodam nas suas e ela se debruça mais, muito mais, para segurar o pardal ferido, caído na cerâmica do piso da varanda”.
O que canta aos ouvidos é a melodia, é ramalhete de imagens, arranjos de flores, de uma fantasia cigana. E a voz narrativa se revela: “eu sou”.

“Eu sou no que fui cigana dançarina a bailar na tua pele e no teu sopro e no teu fragmento
Tu és no que foste cigano entre os fios sonoros do violino a tecer no meu passo a tela e a trama por onde estamos desenhados ou vamos afoitos rompendo as linhas e os fios e os fusos horários
Do centro da fogueira enxames de salamandras saltam das chamas e se soltam em setas e a fogueira se acrescenta nas labaredas e na oscilação da luz
Almofadas entre lépidas franjas e rumorosas contas e dorsos tensos mas lassos, no silêncio sussurrante e nas impregnações que se dissolvem e caem das malhas invisíveis
((Eu fecho o caderno de capa azul e cerro os olhos e encerro o olhar ausente da coreografia dos cílios))”

Nesta prosa há lugar para a revelação da poesia. E os versos ocupam a pauta no poema que se intitula “A avó e a porta aberta”. A pergunta inicial reverbera em todo o texto, em busca de uma resposta que está para além do discurso, imantada na memória e na indagação dos viveres:

“Por que ela não quer passar a chave na porta?
Por que você deixa sempre a porta encostada?”
As perguntas também são formas e estratégias de resposta. As respostas diretas podem escamotear os sabores dos significados, falseando sentimentos e intenções. Nas entrelinhas esconsas, entre perguntas e respostas, os mistérios convivem e os detalhes se entremostram. A palavra nomeia, revela e instaura. O silêncio é um discurso – ambivalente e perigoso. Diálogo, o antídoto.
Esta prosa nos aclimata em seu ritmo, e escorre mansa, em palavras correntes, página afora, seguindo a sinuosidade dos sentidos, num lirismo solto, espraiado, elegante, bem articulado. Águas de mar banhando as pedras. Águas de rio desenhando as margens. Uma protagonista nos avisa, sobre si mesma, que é: “calmíssima, sim, sou assim, nada me tira do prumo,” e, de fora, a narradora continua: “, revisora de textos para editoras, não deixa passar uma virgula, um acento, uma preposição na regência verbal,” e, adiante, prossegue: “, e assim é, a fala plana, o gesto contemplativo, o olhar liso sem ruga,” e completa: “os cabelos em brandos fios, as roupas sem modulações de cores nem de linhas, sapatos em risco reto,”.  O discurso flui assim, demarcado entre vírgulas, como a vida, sem pontos fechados, feixes de continuidades…
Surpresas. Assim, em mais uma história de motorista de táxi: “O vento vinha na cabeleira grisalha do motorista, os dedos esguios regulavam a altura do CD, a senhora gosta de Vivaldi? Antes de descer do táxi, contive minha curiosidade. Seria falta de delicadeza perguntar a reação dos jasmins e seu perfume noturno, ante a programação musical para as orquídeas?”
Uma coisa é certa: é preciso trocar ideias com os jasmins; indagar sobre seu perfume noturno. Perguntar sobre suas intenções musicais para com as orquídeas. Asseguro que isto não seria indelicadeza, mas vivo interesse amoroso. O que jaz em mim? De onde vem tal indagação, de que riacho, de que jardim?
Onde começa a eternidade?  Pode-se responder a essa pergunta a partir da biografia de um cajueiro? Helena é capaz de responder. Porque há em Guarajuba,locus afetivo e imaginoso da escrita deste livro, um senhor Cajueiro inscrito no chão, no ar, no tempo, no texto, no coração.
Com a palavra a narradora:
“Eu me sentava e ficava, eu e ele, o cajueiro irmão, em contemplação, integrados no silêncio vegetal que nos impregnava e nos levava à pureza das origens. Ninguém passava por nós, as formigas, longe do cerco, nos olhavam cúmplices e seguiam sem ruído. Vento havia e passava cabisbaixo em meio à profusão de ramos e folhas e cipós e parasitas e cabelos nossos, sem murmúrio nem gemido. A eternidade começava ali e acabava no muro que dava para a rua.”
E, para concluir, o fragmento final desse discurso amoroso:
“A eternidade começa ali e ultrapassa o muro que dá para a rua e nos desmancha, corpo e tronco, na metamorfose das origens em predestinação além das palavras e das anteriores perguntas”.
Mas o que é este livro, afinal? É uma espécie de diário aleatório de reminiscências ficcionais que evoca os dons acumulados e as experiências do viver.  Ele instaura-se enquanto relicário de conhecimento e compreensão, ao se imantar em histórias – fragmentos dos viveres – as aspirações e os planos, esboços recolhidos no inventário das possibilidades, nas dobras dos paradigmas, nas páginas não escritas do livro dos saberes. O que não se vive no mundo real, pode-se viver ainda melhor na ficção. E a ficção pode ser mais realista e próxima do ser, do que aquilo que seja o ser mais próximo do real. Escrever é mesmo um mistério. Escrever é verbo, escrever é Helena.
Caro leitor, eu já li o livro que se inicia aqui. Eu cheguei à copa dessa árvore antes de você, perdoe-me. A autora me permitiu compartilhar a sombra e a alma desse Cajueiro. Ela e eu inscritos em qual Tempo Cajueiro. Nas folhas desse livro-árvore há seiva, flores e frutos. Há nele um código de perpetuação. Arvore-se, caro leitor. E lembre-se da lição helenar: “as árvores, quanto mais velhas são, mais jovens serão”.

Salvador-Bahia, 28 de setembro de 2011.

Um grande brasileiro

img13Joaci Góes
Se não tivesse desaparecido em janeiro último, o Almirante, engenheiro naval, escritor e pensador José Celso de Macedo Soares Guimarães teria completado 89 anos neste 21 de abril. Foi ele o derradeiro expoente de uma família de notáveis que conta com nomes da expressão de Antônio Joaquim de Macedo Soares, o grande magistrado que transferiu para a princesa Isabel o epíteto de Redentor que lhe deu o povo do Rio de Janeiro, mobilizado pelo fim da escravidão; o chanceler José Carlos de Macedo Soares; o ministro Edmundo de Macedo Soares; o jornalista Eduardo de Macedo Soares.

Entre as diversas funções públicas que o Almirante Macedo Soares desempenhou, com invariável brilho e honradez, o exercício da Superintendência Nacional da Marinha Mercante (Sunaman) alcançou o destaque maior, ensejando ao governo militar, então dominante, extraordinário êxito na política de transporte marítimo.
Graças à sua firmeza, reconhecida competência e apoio do saudoso e injustiçado ministro dos Transportes, Mário Andreazza, o Brasil foi capaz de reagir às pressões internacionais, resistência que ensejou aos armadores brasileiros, públicos e privados, uma participação de inéditos 40% nos transportes marítimos originados em nosso país, posição que resultou na melhoria do nosso balanço de pagamentos e no sensível aumento das encomendas aos nossos estaleiros. O vitorioso modelo começou a ruir em razão do desgoverno de custos praticados pela estatal Lloyd Brasileiro, transformada em cabide de empregos e inteiramente descomprometida com critérios de economicidade e produtividade.
A atual ausência de competitividade da inexistente marinha mercante brasileira responde hoje por um déficit nas contas de fretes da ordem de 20 bilhões de dólares. Foi ele também quem negociou na Inglaterra o empréstimo para construção da Ponte Rio-Niterói.
A notável produção bibliográfica de Macedo Soares, compendiada em dez sólidos volumes, compreende estudos sobre praticamente todos os campos da economia brasileira. A mais disso, foi através de sua militância na imprensa, como articulista do Jornal do Brasil, de O Estado de São Paulo e da Tribuna da Bahia, que respirou a alma democrática brasileira, sufocada pelos excessos da ditadura. Sua postura desassombrada resultou no seu enquadramento na famigerada Lei de Segurança Nacional. Sua ruidosa absolvição pela justiça militar muito contribuiu para minar a força do vigorante regime de exceção.
O depoimento de Luiz Viana Neto define o significado de Macedo Soares para o nosso estado: “A Bahia tem uma dívida de gratidão com o Almirante José Celso de Macedo Soares, ex-presidente da Companhia Brasileira de Marinha Mercante. Foi ele quem, atendendo solicitação do então governador Luiz Viana Filho, sugeriu a implantação do Sistema Ferry-boat, que reduziu em 70 kms o trajeto rodoviário Rio-Salvador. Sem falar nos extraordinários benefícios que trouxe para toda a região do Baixo Sul. Por isso, seria louvável se, num preito de justiça, fosse seu nome perpetuado numa das ruas de nossa capital”.
Sem sombra de dúvida: José Celso de Macedo Soares, que deixa dois filhos, netos e a viúva Maria Helena, foi um grande brasileiro.


O mestre dos contrastes


Carlos RibeiroCarlos Ribeiro
Ai de nós! Onde está a doce Revolução?…
A exclamação do velho comerciante judeu Guedáli, num dos contos de O exército de cavalaria, expressa a dor profunda que atravessa os 36 magníficos textos do escritor ucraniano Isaac Bábel (1894-1940), neste livro que é considerado por Boris Schnaidermann o texto-paradigma do século 20. “Com o seu sabor acre de sangue e terra, com suas violências que nos deixa perplexos, eles estão realmente entre os escritos que expressariam melhor aquele século de horror e mudança”, diz Schnaidermann, para quem “a obra de Bábel é, na realidade, um adeus ao mundo sequencial e lógico do século 19. O brutal, o descomunal, o inesperado, marcado pela desumanidade e incoerência, irrompe ali com estrépito e uma explosão de colorido”.
Os contos desse extraordinário autor, fuzilado em 1940, numa das fases mais críticas do extermínio stalinista, registram os dramáticos acontecimentos que envolveram a guerra russo-polonesa de 1920-21. Conflito que, já naquele momento, marcava a derrocada dos sonhos de justiça e de igualdade da Revolução Bolchevique, encobertos pelo mar de sangue que inundou a terra polonesa. Lá onde, como assinalou Otto Maria Carpeaux, “as brutalidades mais violentas são perpetradas como se a vida de todos os dias fosse isso mesmo: incêndios, fuzilamentos, torturas, violações, horrores de toda espécie”.
Há muita violência nos contos de Bábel, mas o que surpreende mesmo o leitor nesses relatos vertiginosos é a extraordinária vitalidade da linguagem e seus contrastes fulgurantes: o realismo mais cru associado ao expressionismo mais delirante; o heróico ao patético; o humanismo à barbárie. Tudo isso enriquecido pela experiência visceral do autor, que serviu na Sexta Divisão do Primeiro Exército de Cavalaria, como correspondente de guerra do jornal Krasny Kavalerist(“O Cavalariano Vermelho”), na Polônia Meridional. Esta experiência resultaria, inclusive, no Diário de 1920, publicado, em 1990, pela viúva e segunda mulher do autor, Antonina Nikoláevna Pirojkova.
Caleidoscópio das batalhas
A participação do escritor na guerra possibilitou o acréscimo de mais um elemento dissonante aos seus contos: em meio à linguagem intensamente metafórica dos relatos, pode-se distinguir um quê de reportagem, de documento fiel daqueles espantosos acontecimentos: seja nos diálogos vivos e realistas, seja nas descrições minuciosas dos personagens, que surgem, desaparecem e reaparecem num caleidoscópio atordoante das batalhas, das chegadas e saídas das tropas nas cidades e aldeias arrasadas, nas situações-limite em que todos vivem arrastados pela voragem da Revolução.
Essas características permitem que as histórias, vistas em conjunto, formem uma espécie de romance fragmentário cujos pontos de ligação são o narrador da maioria dos contos, o intelectual judeu Kirill Vassilievitch Liútov, alter-ego do escritor, e uma galeria de personagens terríveis e comoventes, históricas e anônimas, como pan Apolek, Guedáli, Afonka Bida, o general Budiónni, Sachka, o Cristo, Khlébnikov e Akinfie. A proximidade do narrador com o fato narrado é também ressaltada por Boris Schnaidermann como mais uma característica da modernidade do autor e da quebra de uma convenção herdada do século 19. “Aquele distanciamento do narrador em relação ao narrado, aquela onisciência e segurança, que subsiste mesmo quando a narrativa é feita na primeira pessoa, dão lugar ao narrador que está imerso naquilo que narra. É verdade que isso já ocorria esporadicamente, mas foi em nosso atormentado século 20 que tomou corpo e adquiriu consistência”.
Esse profundo lirismo, em contraste com o distanciamento épico do narrador, é mais uma das estranhezas da prosa poética de Bábel. Estranheza flagrante, por exemplo, na descrição da travessia do rio Zbrutch, pelo Estado Maior, quando o narrador observa que “Um sol alaranjado rola pelo céu como uma cabeça decepada, uma luz suave acende-se nos desfiladeiros das nuvens, e os estandartes do poente ondulam sobre a nossa cabeça”, enquanto “o sangue de ontem e dos cavalos mortos pinga no frescor da tarde” (A travessia do Zbrutch). Ou quando escreve: “Caminhos azuis fluíam à minha frente, qual rios de leite jorrando de muitos peitos. Na volta para casa, temia encontrar meu vizinho Sídorov, que toda noite pousava em mim a pata peluda de sua tristeza” (O sol da Itália). Ou ainda quando relata que “[…] Na terra, cercada de ganidos, apagavam-se os caminhos. As estrelas saíram rastejando do ventre frio da noite e as aldeias desertas incendiavam-se no horizonte” (os Ivans).
Relatos brutais
Estes são exemplos de uma das tendências da escrita de Bábel: a da prosa ornamental, bem ao gosto dos simbolistas; mas que, como diz Schnaidermann, “dá a impressão de abrir caminho a toda uma prosa mais direta, de relato mais imediato” – tendência que expressa, de forma mais contundente, a brutalidade dos conflitos, a perturbadora capacidade de narrar as maiores violências no tom menor de acontecimentos prosaicos do cotidiano. No conto Uma carta, por exemplo, um filho relata à sua mãezinha Evdokia Fiódorovna Kurdiúkova como seu pai matou o filho (irmão do autor da missiva):

A nossa brigada vermelha, a do camarada Pávlitchenko, avançava sobre a cidade de Rostov, quando houve uma traição em nossas fileiras. Naquela época, o pai estava comandando uma companhia de Denikin. As pessoas que o viram dizem que ele usava medalhas, como no velho regime. E, por ocasião dessa traição, fomos todos feitos prisioneiros, e o pai pôs os olhos em cima do meu irmão Fiódor Timoféitch. Daí, o pai começou a espetar o Fedia, falando: seu vendido, cachorro Vermelho, filho-da-puta e outras coisas assim, e não parou de espetá-lo até escurecer, quando o meu irmão Fiódor Timoféitch morreu. (BÁBEL, 2006, p. 30-31).
E prossegue, lembrando agora como seu irmão mais velho, Semion Timoféitch, posteriormente designado comandante do regimento, “chateado” com o assassinato do irmão caçula, vingou-se do pai. “[…] e Semion Timoféitch mandou-me sair do pátio, de modo que não poderei, querida mãezinha Evdokia Fiódorovna, descrever para a senhora como deram cabo do pai, porque fui mandado embora do pátio”. E assim faz a crônica despojada do Exército de Cavalaria, que cheira “a sangue fresco e a restos humanos”. Bem representativo dessa anarquia, em que todos são juízes de todos, é o conto O sal. Nele, o soldado Nikita Balmachov descreve, numa carta ao redator do Krasny Kavalerist, “a falta de consciência das mulheres, que só fazem nos prejudicar”. O prejuízo, diz ele, deveu-se ao fato de uma das mulheres que vagavam famintas e desesperadas pela paisagem conflagrada, após ser acolhida “por compaixão” pelos soldados vermelhos, num vagão de carga, ter sido flagrada contrabandeando sal:

Confesso que realmente atirei a tal cidadã para fora do trem em movimento, num declive, mas ela, de tão ordinária, ficou um tempo ali sentada, sacudiu as saias e seguiu seu caminho de sordidez. E, ao ver aquela mulher intacta e a indescritível Rússia que a rodeava, e os campos dos camponeses sem uma só espiga, e as moças ultrajadas, os muitos camaradas que vão para o front e os poucos que voltam, me deu vontade de pular do vagão para dar um fim na minha vida, ou na dela. Mas os cossacos ficaram com pena de mim e disseram:
– Passa fogo nela.
E, apanhando minha fiel arma na parede, varri aquela vergonha da face da terra trabalhadora e da República. (BÁBEL, 2006, p. 127).


Concisão exemplar
A obra de Isaac Bábel é marcada por uma concisão que a tornou modelo para vários ficcionistas, dentre eles o americano Ernest Hemingway. Sobre isso, declara Boris Schnaidermann: “Hemingway tinha um respeito enorme por Bábel. Ele chegou a afirmar: ‘Dizem que eu escrevo muito sinteticamente. Não é verdade. Quem escreve com verdadeira síntese é o Isaac Bábel. Eu até que sou prolixo em relação com o Bábel”.
O conto desse admirável ficcionista é também modelo exemplar de duas definições básicas do gênero: a do “singular efeito único”, proposto por Edgar Allan Poe; e a da tensão máxima, sugerida por Julio Cortázar. Vale lembrar a famosa definição do escritor argentino, que, ao comparar o romance e o conto a uma luta de boxe, disse que, diversamente do romance, no qual se pode ganhar por pontos, no conto é preciso ganhar por nocaute. Com suas histórias curtas, com seus registros sintéticos de situações-limite, Bábel escreve como quem lança raios. Raios que nos despertam, hoje, do sonho anêmico de uma literatura narcísea cada dia mais voltada para o próprio umbigo de seus ilustres autores.
A esmerada edição da Cosac Naify inclui uma apresentação feita pelos tradutores Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, e posfácios de Boris Schnaidermann e Otto Maria Carpeaux (deste, o texto A grandeza de Bábel, escrito em 1962), um bastante útil glossário de termos russos, poloneses, iídiches, hebraicos e ucranianos, além de siglas soviéticas e breves biografias de figuras históricas citadas nos contos. Na apresentação, os tradutores justificam a decisão de resgatar o título original da obra, em lugar do título A cavalaria vermelha, utilizado em traduções brasileiras anteriores, sempre feitas a partir do inglês, espanhol ou francês. Espera-se que esta iniciativa motive as editoras brasileiras a publicar outros importantes escritores russos do século 20, tais como Liérmontov, Antikarov, Boulgakov, Aleksandr Herzen, Daniil Kharms e Ievguêni Zamiátin, entre outros. Enfim, um time de autores notáveis que, após a Glasnost, ressurgem das cinzas para mostrar que, ao contrário do que muitos pensam, a grande literatura russa não acabou no século 19.

REFERÊNCIAS
BÁBEL, Isaac. O exército de cavalaria. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

O sinal de nascença

glGláucia Lemos
Maravilhados com a imponência da sala, olhávamos tudo com  incontida curiosidade, pois nunca a tínhamos visitado antes, Começávamos  a conhecer cada peça do mobiliário enquanto, ao mesmo tempo, eu tentava reconhecer as personagens retratadas e emolduradas nas redomas que pendiam das paredes, suspensas por longos cordões trançados.
Aquele senhor moreno de cabelos lustrosos, espessos bigodes bem aparados e  costeletas recortadas, era, sem dúvida, o meu bisavô Diogo. Olhar severo sob sobrancelhas negras, queixo forte e nariz afilado, formavam um belo conjunto definindo bem o rosto do homem de cuja personalidade impressionante eu estava acostumada a ouvir falar desde a minha infância.
Comentavam, em tom que se equilibrava entre respeito e temor, que administrava o engenho com punho firme, aplicando igual rigor na consideração dos erros e dos acertos, quando punia cruelmente os primeiros e premiava generosamente os segundos. Não conhecia meias medidas, ou, se as conhecia, preferia ignorá-las. Nunca perdoando, jamais negando prêmio. Mas tudo na exata medida em que lhe parecia.
Aquela moça da redoma a seu lado, era, com certeza, a minha bisavó Idalina.  Olhei-a com simpatia. Demorei-me examinando o rosto delicado e fino. Cabelos escuros, penteados em bandós, ornavam as faces brancas que me pareceram de louça. Olhos grandes e claros irradiavam uma expressão tranqüila, embora, talvez, um toque de melancolia.
Corri ao grande bisotê  que encimava um console e comparei meu rosto. Era verdade. Eu era muito parecida com a minha bisavó, como  minha mãe costumava dizer. Os olhos cinzentos, graúdos, a conformação do nariz, o desenho dos lábios. Se me penteassem uns bandós, poderiam dizer que aquela foto era minha. Teria tido minha mãe uma premonição ao escolher para mim o mesmo  nome de sua avó.  Apenas uma diferença existia entre os nossos rostos: eu trazia na face esquerda um sinal de nascença. Um pequeno traço oblíquo que poderia ser confundido com uma leve cicatriz de arranhão. Sinal que não encontrava no rosto sem mácula da minha  bisa Idalina.  Dizia a crendice popular que minha mãe, quando grávida, teria guardado em seu sutiã algum objeto de forma semelhante àquela que acabara por marcar o meu rosto. Talvez uma fina corrente de medalha que costumasse usar no pescoço, repousasse por acaso entre seus seios.
Devagar, continuamos explorando o casarão. Examinávamos  tudo cuidadosamente,  Olívio e eu. Gostamos da estante de canto, da delicadeza de uma enorme cristaleira  jateada com ramagens, onde ainda estavam guardadas  donzelas, jarras de opalina e compoteiras. Rimos da namoradeira, cada assento voltado em sentido contrário ao do par. Olívio apaixonou-se pela cômoda barroca  e se deixou apreciando as graciosas volutas, enquanto  eu me pus a andar pela sala  e, foi então que encontrei a cadeira. Era algo extraordinário, imponente.
Uma cadeira de braços, de espaldar alto, estava colocada em lugar de destaque no salão. Parecia um trono. Ouvira falar dessa famosa cadeira do meu bisavô. Sentado nela, o fidalgo ditava as ordens no engenho.  Demorei-me apreciando-a Pernas sólidas que terminavam em pés de dupla garra.  O encosto lavrado, ostentava no alto o brasão, à maneira das armas de uma casa nobre.  A quantas cenas aquela cadeira teria assistido… Sentado nela meu bisavô teria exercido seu tirânico poder sobre familiares, mucamas e escravos daquela propriedade. Atraída, fui-me aproximando. Quanto mais me aproximava, mais me sentia atraída pela cadeira. Comecei a sentar-me. Tão logo acomodei-me no assento, fui possuída por estranha sensação de poder. Inicialmente atribuí à situação da peça, como um trono em local privilegiado na imponência da sala. Procurei avistar Olívio. Estava ajoelhado examinando os pés de bronze de uma  arca. As solas dos tênis, voltadas para cima, mostravam-se muito sujas da terra do jardim. No meu costumeiro cuidado por asseio na casa,  isso me fez sentir inexplicável irritação que me tomou subitamente. Um sentimento novo e agressivo. Procurei conter-me e chamei:
– Olívio!
Meu marido estava inteiramente absorto, sentindo nos dedos o caprichoso lavrado que ornamentava a  arca, apaixonado que era por arte de marcenaria. Seu silêncio inspirou-me um sentimento de ira incontrolável, até então desconhecido para mim, e gritei:
– Olívio!!!
Assustado, ele ergueu-se de um salto e me olhou. No rosto uma surpresa   de quem não me entendia. Eu estava trêmula de irritação. Agarrava-me aos braços da cadeira tentando conter-me, mas me tornara possuída por uma raiva incontrolável.  Meu marido, olhos em pânico, correu para mim, tomando-me nos braços. E foi quando o abraço amoroso de encontro a seu corpo tirou-me da cadeira, perguntando o que havia comigo, que comecei a me tranqüilizar e senti vergonha de lhe dizer da violência que me possuíra. Eu sempre fora louvada pela serenidade. Disfarcei, falando que me sentira muito mal de repente, e gritara tanto para que me socorresse, mas já estava bem.  Olívio atribuiu ao calor da sala, pois havia no ar um incômodo abafamento. Abriu as janelas e  nos pusemos  a comentar a história daquela casa.
A casa grande do engenho não era habitada pela família havia muitíssimos anos. Empregados encarregados de limpá-la e conservá-la com tudo o que nela se encontrava, cuidavam fielmente desse encargo. Minha mãe, filha única de uma única filha, herdara dos avós, pelos quais fora criada ao perder os pais em um acidente, tudo o que havia no engenho. Desde a morte dos avós, porém, nunca mais voltara ali, receosa das recordações que a  magoariam. Por esse motivo, Olívio e eu não conhecíamos o local, onde somente meu pai ia, regularmente, para  administrar a lavoura de cana, já que o engenho fora desativado. Para nós, tudo era novo e fascinante, já que só conhecíamos a história.
Retornamos a conhecer os cômodos da casa e planejar modificações  que nos permitissem trazer as crianças durante as férias  para aproveitarem a quietude e a liberdade que poderiam desfrutar  em todo aquele espaço da fazenda.
No início da tarde o céu mostrou-se nublado, e sem tardança o aguaceiro desabou precedido pelos relâmpagos e pelo ribombar da trovoada. Esquecemos o episódio da cadeira, preocupados que estávamos com a necessidade de  retornar para as crianças que nos esperavam na cidade, aos cuidados de minha cunhada,o que estava dificultado pela mudança do tempo.
À tardinha um caseiro veio nos avisar  que não poderíamos regressar naquela noite. Ruíra, ao peso do temporal, a velha ponte que se estendia sobre o rio, cujas águas cresciam inundando inteiramente as margens. A comunicação estava interrompida. Pernoitaríamos na casa grande do engenho, até que no dia seguinte  pensássemos em como voltar, talvez  por um caminho mais longo, por onde fosse possível passarmos com o carro.
Recolhêmo-nos cedo. Não havia lua, só as águas do céu generosas.   Sem demora os sapos puseram-se a coaxar nos brejos, e os grilos a habitar o pouco silêncio que a tempestade permitia.


Despertei aos gritos que me chamavam.
– Idalina! Idalina!
Era uma voz de homem de entonação muito forte. Sentei-me na cama ainda atordoada, enquanto repetia-se o chamado. Olhei em volta. A meu lado meu marido ressonava calmamente.  Algum dos empregados estaria a berrar meu nome? Mas daquele jeito? Os cachorros continuavam silenciosos, o que me garantia que na área externa da casa nenhuma anormalidade  acontecia. Só a chuva que lá fora continuava ruidosa, como um soturno fundo sonoro àquele estranho apelo.
Levantei-me entre apreensiva e sonolenta, aproximando-me da porta cuja vidraça era velada por pesada cortina. Afastei-a com cuidado, sem  abrir a porta, e pus-me a espionar o salão contíguo à alcova onde nos acomodáramos. Sem entender, com olhos ainda turvos de sono, vi que havia alguém ocupando a cadeira majestosa. Era um homem. Usava um  colarinho  alto, engomado, que quase lhe tomava  o pescoço. Aquelas costeletas, aquele bigode aparado, o meu bisavô Diogo?!
– Idalina! Idalina!!! –  ele ainda gritava impaciente.
Comecei a tremer.  Eu não atenderia àquele chamado. Prendi a respiração e deixei-o continuar . Em pânico, sequer ocorreu-me acordar Olívio.
Logo, porém, pela porta do corredor, assomou a figura esbelta da minha bisavó Idalina, no passo suave, cheia de dignidade. Olhos fitos no meu bisavô, as mãos branquíssimas segurando as pontas da mantilha rendada, ela aproximou-se e, sem dizer palavra, parou à sua frente.  Vi o bisavô Diogo voltar a cabeça na direção do corredor, e ordenar gritando:
– Tragam a negrinha!
Imediatamente, dois negros vestidos com calções que lhes chegavam às canelas, entraram arrastando uma mucama até a frente de Diogo que se levantou e, retirando do espaldar da cadeira um chicote muito comprido, estalou-o no ar e voltou-se para minha bisavó, exclamando:
– Vou castigar  sua protegida, senhora,  para que aprenda que neste engenho todos têm que obedecer somente às minhas ordens. Somente eu mando aqui e ái daqueles que me desobedecem.
Levantando o braço da prepotência, aplicou na negrinha a primeira chicotada. A menina gritou e rolou no chão gemendo. O rosto de Idalina contraiu-se.  Escutei sua voz atormentada, enquanto avançava e se punha entre o marido e a negrinha, protegendo-a.
– Não, senhor meu marido, não a castigue mais!
– Saia da frente, senhora, não quero machucá-la! – ele gritou.
E, erguendo o látego mais uma vez, cheio de indignação, a segunda chicotada colheu em cheio a face esquerda de Idalina , que se interpunha, protegendo a menina. Vi minha bisavó  cambalear com as mãos no rosto, sem um gemido, e, mantendo a dignidade do silêncio, correr para o interior do casarão, deixando cair  sem cuidado a mantilha rendada.
Foi como  se sentisse arder a chicotada em minha própria face. Era terrível. Numa vertigem, recostei-me ao portal. Levei as mãos ao rosto. Estava úmido. Minhas mãos ensangüentadas. O meu sinal de nascença sangrava.

Africanos – muito além da escravidão

ypcYeda Pessoa de Castro
Em Revista de HISTÓRIA da Biblioteca Nacional
Rio de Janeiro. Ano 7 / nº 78 / Março 2012
CAMÕES COM  DENDÊ
Se as vozes dos quatro milhões de negroafricanos que foram trasladados para o Brasil ao longo de mais de três séculos consecutivos não tivessem sido abafadas em nossa História, por descaso ou preconceito acadêmico, hoje saberíamos que eles, apesar de escravizados, não quedaram mudos. Participaram da configuração do português brasileiro e são responsáveis pelas diferenças que afastaram o português do Brasil do de Portugal.

Aquelas vozes são perceptíveis na pronúncia rica em vogais da nossa fala (ri.ti.mo, a.di.vo.ga.do), na nossa sintaxe – tendência a não marcar o plural do substantivo (os menino(s), as casa(s)), na dupla negação (não quero não),no emprego preferencial pela próclise (eu lhe disse, me dê), mas se revelam de maneira inequívoca nas centenas de palavras que enriquecem o patrimônio linguístico do português brasileiro.

São palavras portadoras de elementos culturais compartilhados por toda a sociedade brasileira, no âmbito da recreação (samba, capoeira), dos instrumentos musicais (berimbau, cuíca, agogô), da culinária (mocotó, moqueca), da religiosidade (candomblé, umbanda), das poéticas orais (os tutus dos acalantos, otindolelê das cantigas de roda), das doenças (caxumba), da flora (dendê, maxixe, jiló), da fauna (camundongo, minhoca), dos usos e costumes (cochilo, muamba), dos ornamentos (miçanga, balangandã), das vestes (tanga, sunga), da habitação (cafofo, moquiço), da família (caçula, babá), do corpo humano (bunda, corcunda, banguela, capenga),  das relações pessoais de carinho (xodó, dengo, cafuné), dos insultos (sacana, lelé), do mando (bamba, capanga), do comércio (quitanda, muamba, maracutaia).

Nesse vocabulário, há os aportes antigos, na sua maioria de línguas angolanas, que entraram no idioma na época colonial e já estão  completamente integrados ao seu sistema linguístico, com seus derivados (esmolambado de molambo, sambista de samba, encalombado de calombo, maconheiro de maconha).  Na mesma categoria encontram-se os termos associados à escravidão (senzala, quilombo, mocambo), alguns já obsoletos (banzo, mucama) e poucos também correntes em Portugal (moleque, carimbo), em meio a centena  de outros  para designar elementos então introduzidos no  trato diário com os escravos domésticos – os escravos de jó ( do quimbundo njo, casa) que jogavam caxangá ( jogo de tabuleiro) da conhecida  brincadeira infantil brasileira.

O desempenho da mulher negra, ama-de-leite e criadeira, foi tão marcante no seio da casa senhorial que até hoje chamamos o filho mais jovem pelo termo angolano caçula em lugar de “benjamin”, como se diz em Portugal. Foi ainda nesse momento que outros termos angolanos deixaram fora de uso no Brasil os seus equivalentes em português, moringa em lugar de bilha, corcunda por giba, capenga por coxo, cachaça por aguardente, cochilar por dormitar, xingar por insultar, dendê por óleo de palma, molambo por trapo, marimbondo por vespa, dengo por mimo, caxumba por trasorelho.
Mas onde ficou a memória recordação dessas vozes, uma vez que nenhuma língua africana é mais falada como idioma pleno no Brasil?  Nos falares especiais de comunidades negras rurais, com um vocabulário reduzido de base umbundo, como as que vivem no Cafundó, São Paulo, em Tabatinga, Minas Gerais, ou as que dizem falar a “língua de banguela” no cântico dos vissungos, também em Minas Gerais, e na linguagem litúrgica dos terreiros onde elas ressoam com maior intensidade através de um repertório lingüístico diferenciado como fator de identidade sociorreligiosa do grupo, seja ele de tradição mina-jeje dos voduns daomeanos, nagô-queto dos orixás iorubanos ou congo-angola dos inquices do mundo banto. Esse repertório litúrgico, transmitido por tradição oral e que faz parte do falar cotidiano da gente do terreiro, foi popularizado através da mídia por compositores da MPB, de blocos afros e afoxés, de sambas-enredo e pelas telenovelas.
Esses terreiros têm atraído, além de pesquisadores e intelectuais de fama internacional, compositores brasileiros que terminaram por tornar conhecidos no país os orixás Iemanjá, Xangô, Oxum, Oxóssi, Ogum, Iansã, Oxalá, bem como termos tirados do contexto sagrado e que têm o seu sentido estendido. A palavraaxé, o fundamento sagrado desses terreiros, foi popularizada como saudação de boa-sorte, amém, e também denomina um estilo de música criado na Bahia na década de 80, a axé-music, com milhares de axezeiros, seus admiradores.
Calcula-se que, dos quatro milhões de africanos trazidos para o Brasil, a maioria falava  quimbundo e quicongo, e se distribui por todo o território brasileiro. A essa gente juntaram-se, em número menor, mas igualmente importante, os de fala umbundo, dirigidos em grande parte para os garimpos em Minas Gerais. A mais antiga gramática do quimbundo, A arte da língua de Angola, publicada em Lisboa em 1697, foi escrita na Bahia pelo missionário Pedro Dias para uso dos jesuítas, a fim de facilitar a doutrinação dos 25.000 negros. Segundo o padre Antônio Vieira, os africanos se encontravam em Salvador sem falar português, mas, acredita-se que eles não tinham necessariamente o quimbundo como língua materna, pois, embora embarcados em Luanda, poderiam ser provenientes de outras regiões da atual Angola. Situação semelhante deve ter ocorrido em Palmares, onde teria se desenvolvido de um falar de base quimbundo-quicongo como se  deduz dos títulos de seus líderes – Ganga Zumba, Zumbi, Dandara – e dos seus principais aldeamentos – Osengo, Macaco, Andalaquituxe.
 Ainda no século XVII, o poeta Gregório de Matos satiriza o que chamava mestres do cachimbo liderando cerimônias de calundus e feitiço em quilombos superlativos. Poderiam ser eles os chamados pretos-velhos, os báculos de Angola, que teriam no Brasil, um modo de falar marcado pelo prefixo quimbundo zi- (ziterrero, menino, ziquizila). São muito populares nos candomblés-de-caboclo, nos quais os caboclos, denominação para os índios brasileiros, são reverenciados como os donos da terra – fato que nos leva a admitir que essas celebrações são as mais antigas manifestações de religiosidade afrobrasileira, resultado do encontro e aceitação de crenças ameríndias do tronco tupi e africanas de matriz banto com o cristianismo. Outra evidência desse antigo contato entre índios e africanos está no dialeto caipira falado no interior de São Paulo, e tido como de base quimbundo-tupi. Nesse processo de interpenetrações culturais e linguísticas, apesar da presença dos evés-fons ( ou ewe-fons), cuja língua foi registrada entre os escravos de Vila Rica no século XVIII, e a mais recente influência dos iorubás no campo religioso, as vozes do negro banto ressoaram sobre todas na construção da língua portuguesa do Brasil.
Qualquer falante de uma língua tende a transferir para uma segunda língua hábitos linguísticos de seu primeiro idioma, e no Brasil isso não foi exceção. Por um lado, no confronto do português com as línguas do grupo banto, em vez de surgir um conflito por falta de inteligibiliade entre seus utentes, ocorreu um movimento de africanização do português; por outro, a imantação pelo português das línguas negro-africanas, em razão das semelhanças estruturais entre o português antigo e as línguas do grupo banto que aqui foram as mais faladas, também em seu aspecto arcaizante. Entre essas semelhanças estão o sistema de sete vogais orais (a é ê i ô ó u) e uma estrutura silábica na qual toda consoante é seguida de uma vogal, provocando o surgimento de uma nova sílaba (ri.ti.mo em lugar de rit.mo). Logo, não há sílaba fechada por consoante ( falá por falarBrasiu por Brasil), fazendo com que se conservasse o centro vocálico de cada sílaba, mesmo átona, o que ocasionou a continuidade da base vocálica do português antigo na modalidade brasileira, afastando-a do português de Portugal de pronúncia muito consonantal. O português europeu atual tende a pronunciar apenas a vogal central (mnin em lugar de me.ni.no), criando grupos consonantais impronunciáveis por um brasileiro.
Diante dessa proximidade relativa e provavelmente de outras ainda encobertas por falta de pesquisas, será possível explicar, de maneira convincente, a importância dos africanos no afastamento do português do Brasil do de Portugal, bem como a ausência de idiomas africanos no país.
Saiba mais:
PESSOA DE CASTRO, Yeda (2002) – A língua mina-jeje no Brasil:um falar africano em Ouro Preto do século XVIII. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro (Coleção Mineiriana)
QUEIROZ, Sônia (1998) – Pé preto no barro branco. A língua dos negros de Tabatinga. Belo Horizonte: EDUFMG.
VOGT, Carlos, FRY, Peter (1996) – Cafundó, a África no Brasil – língua e sociedade. São Paulo: Cia. das Letras; Campinas: Editora Unicamp.

YEDA PESSOA DE CASTRO, etnolinguista, doutora em Línguas Africanas, pesquisadora do Núcleo de Estudos Africanos e Afrobrasileiros em Línguas e Culturas da Universidade do Estado da Bahia, Comendadora da Ordem do Rio Branco e autora de Falares Africanos na Bahia (ABL/TOPBOOKS, 2001).

Alô, Solidão

glGláucia Lemos
No edifício em frente havia um senhor que cuidava dos passarinhos. Suponho que era aposentado. Tinha cabelos brancos e compleição franzina. Caminhava devagar, mas seus gestos eram precisos e cuidadosos. A julgar pelo que eu observava, ele criava os passarinhos.
Todas as manhãs, enquanto eu estava regando a jardineira da minha varanda, via-o no seu quinto andar, à altura do meu, alimentando-os. Só que os passarinhos viviam soltos, não havia gaiolas nem telas limitando a liberdade dos bichinhos. O homem espalhava a ração sobre o parapeito da varanda, e uma infinidade de aves pequeninas vinha não sei de onde e pousava diante dele, inquietamente bicando os grãos de alpiste. Eram rolinhas ou outras de porte semelhante. Todas as manhãs.
Havia alguma coisa poética naquela cena, que se completava com a presença de piotas pendentes do teto, em volta das quais, agitando vertiginosamente as asas, esvoaçavam beija-flores.
Nunca vi outras pessoas habitando aquele apartamento. Sequer transitando pela varanda. Ele movimentava-se rodeado de pássaros, enquanto eu regava minhas plantas no meu espaço.
Contemplava-o por longos minutos, gozando o direito da invasão sem culpa, e me recolhia a meus afazeres que eram muitos, na minha responsabilidade de mãe de três filhos em idade escolar, dona de casa sem empregada, mulher casada com piloto em intermináveis vôos pelos céus do mundo, e tão poucas vezes voando em direção a casa. Aquele velhinho, ao longe, começou a fazer parte da minha vida. Poderia ser meu pai. Se um dia não o encontrava alimentando os pássaros, ficava preocupada. Estaria doente? Teria mudado de endereço? Quem alimentaria os passarinhos na sua ausência? Naqueles dias, a cada intervalo entre o tempero do arroz e o alarme do forno, corria à varanda a ver se estaria de volta. Até que, mais tarde, ou no dia seguinte, ele lá aparecesse, para minha tranqüilidade.
Nisso passaram-se meses sem conta, talvez um ano ou mais, não posso precisar, vivendo a mesma rotina.
Uma tarde, concluída a jornada diária, enquanto descansava a esperar a hora para apanhar as crianças no judô, eu cochilava em cima das páginas de Hemingway, que estava sendo a minha companhia do momento, na absoluta falta de alguém com quem conversar. Com Hemingway eu andava freqüentando, bares e estações ferroviárias, sem o menor preconceito, entre bêbedos, marinheiros e prostitutas.
Então, soou a campainha da porta. Que visita estaria chegando sem prévio aviso, quem sabe seria o zelador para medir o gás.
Com má vontade, espiei pelo olho mágico da porta de serviço. Não era o zelador, não reconheci a pessoa, o hall não estava bastante iluminado. Deixei a área de serviço, encaminhando-me à porta da sala, recriminando intimamente a portaria, por não ter avisado a chegada de alguém.
Torci o trinco. Um senhor de cabelos inteiramente brancos, brancos como talco, estava de pé me olhando, com olhos miúdos e brilhantes, olhos de uma cor quase doirada, e um sorriso que não se completava, apenas se desenhava quase imperceptível na boca pequenina. Um sorriso que quase pedia licença para sorrir.
– Boa tarde – cumprimentei e sorri também.
Tenho medo de desconhecidos, mas vendo-o tão frágil, pequeno, parecendo indefeso, não senti receio, o sentimento era de quase proteção.
– Quem o senhor procura?
Ele desvelou o sorriso retido, com dentes pequenos e brancos, dentes infantis.
– A senhora mesma. Sou seu vizinho, do edifício em frente.
Então o reconheci. Meu Deus, é o velhinho dos pássaros.
– Pois não? Sei. Pode entrar, faça favor.
Ele entrou, seus passos eram suaves. Sentou-se no sofá em frente a mim, discreto, parecendo tímido.
– Esteja à vontade – animei-o.
Então começou
– É porquê… Vejo sempre a senhora regando as plantas pela manhã. Fico observando o empenho com que cuida delas. São tão bonitas. Fiquei curioso.
– É verdade. Eu gosto de plantas, cultivo flores.
– Eu também gosto. Mas não tenho jardineira. Cultivaria crisântemos. Se pudesse.
– Pode vir vê-las. É só um canteiro. Gostaria de ter maior espaço.
Levei-o até a varanda.
– Aqui são begônias. Begônias vermelhas. Quando abrem as corolas demoram muito para secar, às vezes aturam abertas até dois meses, a depender do cuidado.
– Demoram tanto assim? Por isso que estão sempre floridas. Parecem rosas, lá da minha varanda pensei que eram rosas.
– É verdade. Parecem um buquê de rosas pequenas. Mas para mantê-las assim é preciso cuidado, nunca molhar os caules. São frágeis. Já os hibiscos só duram vinte e quatro horas. Murcham em um dia. Não me animo a cultivá-los.
– As plantas são como as pessoas, cada uma com seus caprichos.
– Ou seus problemas – completei.
Ele concordou confirmando com a cabeça.
Voltamos para a sala, ele se sentou no mesmo lugar. Nunca notara que ele me observava, eu era quem o contemplava com seus passarinhos. Procurei ser gentil.
– Posso servir um café, aceita?
– Aceito. Mas não quero incomodar, é só uma visita.
– A visita me alegra. É uma novidade para mim.
Fui para a cozinha. Rapidamente retornei com a xícara fumegando café solúvel. Ele tomou lentamente enquanto falava. A voz era mansa como um chuvisco.
– A senhora gosta de passarinhos?
– Muito. Sempre fico olhando o senhor cuidando dos seus. São muitos, não é?
– Muitos. Mas não são meus. Sou o copeiro deles – ele riu divertido – não sei de onde vêm. Espalho alpiste e eles aparecem.
– E os beija-flores?
– Os beija-flores são uma estratégia. Ponho mel na água dos caqueiros e eles vem beber. Não sei como é que de longe pressentem a presença do mel.
– Mel?
– Sim, mel de abelhas. Compro especialmente para eles. Eu não como mel, é açúcar, mas eles não têm restrições, acho que é porque ainda não têm a minha idade…
Ria enquanto falava. Rimos juntos.
Então se levantou e me entregou a xícara com um resto de café.
– Obrigado. Vou embora. Venha lá em casa amanhã para ver os passarinhos se alimentando.
– Está bem. Obrigada pela visita. Vou ver os passarinhos amanhã quando deixar as crianças na escola.
Abri a porta, ele saiu como chegara, suavemente. Voltei para dentro com um resto de sorriso. Eu iria ver os passarinhos, iria sim.
Fui.
Entrei para uma sala quase vazia de móveis. Uma arca colonial junto à parede. Acima, em contraste, imensa tela bastante colorida com motivo abstrato. Havia uma cadeira de balanço austríaca, ao lado de um revisteiro abarrotado, em frente à TV de 33 polegadas. Persianas na porta larga envidraçada deixavam penetrar uma claridade frouxa, que não chegava a se espalhar pelo espaço da sala.
O velhinho sorriu ao me ver, e me conduziu à varanda. Rolinhas e outras aves miúdas bicavam o farto alpiste espalhado no mármore do peitoril, indiferentes à minha presença e ao ininterrupto rumor dos carros que transitavam lá embaixo. Permanecemos ali, em silêncio, para não afugentá-las. Ele tinha um olhar carinhoso para as aves, quase paternal. Alguns minutos e voltamos à sala onde tratei de me despedir, sem que ele concordasse.
– Não se apresse. Tenho que lhe servir alguma coisa. A senhora toma chá?
– Não se preocupe, eu tenho que ir.
Ele, porém, já se dirigia à cozinha falando enquanto caminhava.
-. Nunca recebo visitas, por isso não preciso de cadeiras. Só utilizo o sofá. A faxineira quando vem também não precisa de cadeiras. Sente-se aqui mesmo na cozinha. Moro sozinho, sabe? Minha mulher morreu há muitos anos, meu filho pouco me visita, não tem tempo, o trabalho, a família. Só me telefona. Isso quando sobra tempo. – Fez um sorrisinho condescendente.
Havia uma bancada de cozinha americana. Sentei-me em um banco alto, enquanto ele preparava um chá que tinha o cheiro bom de canela, e serviu duas xícaras de friso doirado. Uma colocou em minha frente e começou a tomar da outra. Em silêncio. Os dois. Eu não sabia o que falar. No ar pairava uma cumplicidade. Ele sempre sorria, um sorriso brando, parecendo contente, os olhinhos de ouro brilhando entre as pálpebras rugosas. Quando terminei descansei a xícara em cima da bancada e me levantei.
– Agora preciso ir. O chá está muito gostoso, o senhor sabe preparar um ótimo chá. Obrigada por me convidar. Quando quiser, pode ir ver minhas begônias. Agora, porque o senhor me falou deles, estou pensando em plantar também crisântemos, o senhor gostará de vê-los. Pode ir ver quando quiser, é só avisar. Faz um sinal da varanda.
Fui saindo. Ele me acompanhou até a porta e recomendou:
– Cuidado com a porta do elevador que às vezes fica travada. O perigo do poço!!! Esta semana eu escapei por pouco, quase caí. Volte outro dia, não precisa avisar não, eu só saio para caminhar muito cedo. O resto do dia fico em casa. Vou esperar a senhora.
Acenei e entrei na cabine, para o que tive de desemperrar a porta que não fechava.
– Por que não consertam esta porta? – pensei. Alguém ainda pode cair.
Fiquei com o velhinho na cabeça. Amanhã na varanda vou acenar para ele. Enfim muda alguma coisa, tenho um amigo para me sorrir e apreciar minhas flores. Que velhinho mais simpático!
Dia seguinte fui cumprir minha rotina. Regador na mão rumei para a jardineira. Ele ainda não estava na varanda. Demorei mais tempo cuidando do canteiro, arrumando um espaço para as mudas de crisântemos – que iria buscar naquele fim de semana – enquanto esperava para vê-lo chegar a alimentar os pássaros. Ele não veio. Passei a manhã inquieta, espionando a pequenos intervalos. Não apareceu naquele dia. Nem no outro, nem no outro.
Nunca mais o vi. Todos os dias eu olhava o apartamento vazio onde ninguém transitava. Comecei a ler o segundo volume dos contos de Hemingway ao lado da jardineira.
Pouco a pouco os pássaros abandonaram a varanda.
Eu desisti de cultivar crisântemos.

Guernica 75 – Perdoar sim, esquecer jamais

fmFlorisvaldo Mattos
“Perdoar, sim; esquecer, jamais”
Neste abril, precisamente no dia 27, transcorrem os 75 anos do bombardeio da cidade de Guernica, situada ao norte da Espanha, nos Países Bascos, por caças da Legião Condor, a mando de Adolf Hitler, prenunciando a sangueira da segunda guerra mundial que iria ser por ele deflagrada pouco mais de dois anos depois (1939), com a invasão da Polônia.
Por duas vezes, estático e hipnotizado, prostrei-me diante de Guernica, a célebre pintura mural do pintor Pablo Picasso, que retrata a densidade trágica do episódio. A primeira, em 1978, em Nova York, a obra então dominando amplo salão à entrada do MoMA (Museu de Arte Moderna), onde permaneceu de 1942 a 1991, por expressa e cautelosa vontade do pintor; a segunda, em 1994, já em Madri, no museu Casa Del Arte Reina Sophia, para onde a obra se transferira depois de breve período num anexo do Museu do Prado, agora ocupando quase inteiramente vasta parede cercada de vidros blindados e severo aparato de segurança.
Em ambas as ocasiões, entre perplexo e tenso, pude sentir o halo de admiração, reverência e pasmo que envolvia o semblante de cada um dos que, mirando-a, se dispunham em longas filas, reproduzindo-se talvez, num e noutro momento, sensação semelhante à de que se tomaram os visitantes da grande exposição internacional de Paris, ao se deparar com a obra, medindo 3,51m x 7,52m, que ornava a entrada do pavilhão da Espanha, ainda em 1937.
Uns, segundo relatos da época, sem conter as lágrimas, sacudidos pelos ecos da ignominiosa luta fratricida que se travava na Espanha; outros, esses jovens pintores, impactados com desfile da violência por toda o painel, e talvez pela premonição do futuro sombrio que viria logo a seguir, em 1939, a segunda grande guerra. Deixava ali Guernica o modesto e lúgubre atelier de Pablo Picasso, na Rue des Grands-Agustins, na Rive Gauche, para entrar na história da humanidade.
Por isso mesmo, o episódio trágico de Guernica e a monumental obra de Picasso, que se tornaria um ícone na história da arte e da luta ideológica do século XX, comportam duas narrativas, nas quais a guerra sobressai como palco de carnificina e símbolo de morte e horror: a do bombardeio covarde de uma pacata cidade basca no norte da Espanha, em frente ao golfo de Biscaia, pelos aviões da famosa Legião Condor, a mando de Hitler, e a da célebre obra pintada por um artista extraordinário, na qual, remontando à concepção de Homero, na Ilíada, se reafirma que a beleza emerge do sofrimento e do desastre.
Hoje, ante o espetáculo planetário da dissolução de valores, com o terror instalado, atomizado e quase familiarizado no cotidiano de cidades, países e povos, de que são tristes exemplos os ataques do 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos, a invasão e ocupação do Iraque, em 2003, as explosões de um trem em Madri, em 2004, e outros tantos em diversos tempos e lugares, doravante, com mortes, mutilações e dor generalizada, pode-se ter uma idéia do que significaram a tragédia da pequena cidade basca e a sua memória pelas mãos de um gênio.
Ruínas de Guernica
Quase às 5 da tarde em ponto – Quase como o eco fatal de um verso de Lorca (“Eram cinco da tarde em ponto” – “A captura e a morte”, em Pranto por Ignácio Sánchez Mejías, 1935), a tragédia de Guernica começou exatamente às 16:45 horas de uma segunda-feira, em 27 de abril de 1937, dia de feira na cidade, a cujas ruas estreitas nesse dia afluíam camponeses dos vales vizinhos com seus produtos. Assim o inglês Hugh Thomas narra cruamente o momento fatídico:
“Já houvera antes outras incursões aéreas na região, mas Guernica não tinha sido bombardeada. Às vinte para as cinco, começaram a surgir os Heinkels 111, primeiro bombardeando a cidade, e em seguida metralhando as ruas. Os Heinkels foram seguidos pelos antigos espectros da Guerra da Espanha, os Junkers 52. O povo começou a correr pela cidade. Foi também metralhado. Bombas incendiárias, pesando até 1.000 libras, assim como poderosos explosivos, foram lançados por ondas de aviões que surgiram de vinte em vinte minutos até às oito menos um quarto. O centro da cidade estava então destruído e em chamas. Tinham sido mortas 1.654 pessoas e feridas 889. A Casa do Parlamento Basco e o famoso carvalho, que ficavam afastados do centro, não foram atingidos.”
Correspondente de guerra na Espanha conflagrada, outro inglês, George L. Steer, enviou um relato ao Times, de Londres, no qual mostrava a estratégia clara do ataque: semear carnificina e o pânico entre a população civil. Eis a sua descrição daquele momento: “Quando entrei em Guernica, após meia noite, as casas estavam caindo de todos os lados, e era totalmente impossível, até para bombeiros, entrar no centro da cidade. Os hospitais Josefinas e Convento de Santa Clara eram montanhas luminosas de brasas, e as igrejas, exceto a de Santa Maria, foram destruídas; as poucas casas que ainda estavam de pé estavam condenadas. Quando voltei a Guernica naquela tarde, a maior parte da cidade ainda estava queimando, e novos incêndios tinham se iniciado. Cerca de 30 mortos estavam jogados no hospital arruinado”.
Cenário assim só em Nova York, depois dos ataques terroristas de 2001 e na Bagdá, depois da ocupação e arrasamento decididos pelo então presidente dos EUA, George W. Bush, e mais recentemente as conseqüências dos tumultos ocorridos no Egito, Líbia e Síria, que a mídia internacional tem denominado de Primavera Árabe.
O episódio provocou um clamor mundial, não apenas pela tragédia em si, mas pelo que ali se prenunciava. Começando a sua escalada, Hitler, justos oito meses antes, entre os acordes de uma ópera wagneriana, anunciara seu apoio ao general espanhol Francisco Franco, que deflagrara a guerra civil para derrubada do governo democrático da República Espanhola, o que culminaria com a vitória das falanges franquistas, em 18 de julho de 1939, vésperas do início da Segunda Guerra mundial, com a invasão nazista da Polônia, em 1º de setembro. E resolveu fazer de Guernica palco para teste de seu poderio bélico: a eficiência de sua força aérea e o poder mortífero de bombas e granadas. Mandou uma carta ao caudilho e o resultado é o que se viu e a história registra: a tragédia maior sobrevinda com a grande guerra de 1939-1945.
Passados 75 anos, livrando-se de Franco, cuja ditadura durou 36, a Espanha democratizou-se, curou suas feridas e progrediu imensamente, embora no momento enfrente os percalços de uma crise financeira que abalou os países da chamada zona do euro. E, apesar da dissidência basca, com surtos de ações terroristas até pouco tempo empreendidas pelo ETA (partido separatista basco), os habitantes de Guernica seguiram o mesmo caminho, resolvendo transformar num lugar de paz e espírito conciliador o que ficou para a humanidade como um símbolo horrendo da beligerância fascista no mundo.
Montaram um museu no centro da cidade, local maior da tragédia, onde se exibe permanentemente a memória dolorosa do bombardeio, tais como fragmentos de bombas e fotografias da destruição, e filmes documentários de variada criação e procedência. Quem a visita relata também a manutenção de um centro de pesquisa sobre a paz, com o nome de Guernica Relembrada (Gernika Gogoratuz, em basco), que recentemente produziu um filme com o título de O bombardeio de Guernica: a marca dos homens. Possui também o museu cópias de esboços da obra de Picasso (provavelmente fotos de Dora Maar), e da própria obra.
E, neste clima de sobranceiro perdão, uma das paredes do Museu de Guernica exibe emoldurada em um quadro o que mentes apressadas poderiam tomar como tardo gesto ou suprema ironia: uma carta do então presidente da Alemanha, Roman Herzog, datada de 27/3/97, a propósito dos 60 anos da tragédia, em que reconhece o ataque da Legião Condor como “injustificável ato de bombardeio aéreo”, acrescentando, solidário e compadecido: “As vítimas desta terrível atrocidade sofreram angústia humana. Nós repudiamos o bombardeio pelos aviadores alemães e o horror que ele causou. Agora nós pedimos reconciliação e paz entre nossos povos”.
Indo de encontro a qualquer juízo temerário, a carta de Herzog refletia uma lição de humanidade, que vem de Homero e da qual derivaram idéias de máxima importância na história posterior – para a Europa e, daí, para o mundo -, como as da anistia política e do armistício, e por isso, também, dos acordos de paz entre nações beligerantes.
Foi quando o gênio grego concebeu no último livro da Ilíada o encontro de Príamo, rei de Tróia, com Aquiles, matador de Heitor, seu filho, este um dos episódios mais cruéis da epopéia. Desfazendo-se dos brios de sua majestade e da idade, o ancião chega sozinho ao acampamento do inimigo; veio resgatar o corpo mutilado de Heitor, em presença do homem que o matara. Aquiles o recebe, manda-o sentar numa poltrona, ouve-o, aquiesce ao pedido e, mesmo ante relutância, convida Príamo para jantar. Diz Homero:
Depois de satisfeita a vontade de comer, o dardânida Príamo, maravilhado, fita Aquiles: aquele porte, aquele aspecto, dizia-se seu rosto refletir o dos deuses. Mas Aquiles também admira Príamo, contemplando seu rosto bondoso e ouvindo as palavras do Dardânida”.
Príamo levou o corpo de Heitor e a guerra prosseguiu. Jasper Griffin define o encontro entre os dois personagens dessa guerra mítica como “a oportunidade de mostrar grande cortesia e reconhecer-se reciprocamente o esplendor e a fragilidade que coexistem na natureza dos homens”.
Não deve pensar diferente hoje o povo de Guernica, marcado pelo horror daquele episódio trágico, mesmo tendo que calar sobre ele durante as quase quatro décadas da ditadura do general Franco. No entanto, há um fulgor de dignidade que permeia este espírito altaneiro, próprio do povo espanhol. No entanto, visitando a cidade em 2000, o americano Herbert Mitgang, em artigo para o The New York Times, anotava. como resumo de suas observações e contatos, o sentimento que sobrevive naqueles corações resignados: “Perdoar, sim; esquecer, jamais”.
Arte maior e manifesto político – A zombeteira frase atribuída a Pablo Picasso – “Eu não procuro, eu acho” -, se verdadeira, encontra total comprovação nesta sua célebre pintura mural. Por meio do poeta José Bergamin, então adido cultural da embaixada em Paris, o governo republicano encomendara ao pintor uma composição para ornamentar o pavilhão da Espanha na grande exposição internacional, com abertura marcada para junho, três meses depois, tendo como temas o trabalho, o progresso e a paz. Pedia-se apenas uma obra impactante, monumental, duradoura.
Picasso aceitou a encomenda por uma quantia então simbólica de 150 mil francos, já que desde o ano anterior assumira atitude política, ao colaborar com a propaganda republicana, através de duas séries de gravuras (Sueño y mentira de Franco), e começou a preparar os esboços para o grande painel centrado em símbolos marcantes da Espanha.
Foi quando em abril sobreveio o ataque covarde a Guernica pela Legião Condor, com o morticínio em sua maioria de velhos, mulheres e crianças. Ao ler a notícia e ver, aterrorizado, as fotos no diário Ce Soir, de 1º de maio, Picasso mudou de idéia, resolvendo pintar uma tela que significasse maiúscula resposta à insanidade e atrocidade da carnificina. Eis como esta sua decisão foi definida pela voz de uma autoridade em arte, o italiano Giulio Carlo Argan:
“Assim nasce, em poucas semanas, Guernica, que se pode dizer o único quadro histórico de nosso século. Ele o é não por representar um fato histórico, e sim por ser um fato histórico. É a primeira intervenção resoluta da cultura na luta política; à reação, que se exprime destruindo, a cultura democrática responde pelo punho de Picasso, criando uma obra-prima”.
Em complemento, Argan chega a fazer uma inusitada comparação.
Considerando a problemática histórica, social e política do século 20 e a histórico-religiosa do século 16, Argan iguala o significado de Guernica de Picasso ao do Juízo Final de Michelangelo Buonarroti (1475-1564) – ambos intervieram “com a autoridade do gênio” no problema mais candente de suas respectivas épocas.
Nos dias de Guernica, que problema europeu era esse? Resumia-se a duas frentes preocupantes: a da ambiciosa ameaça do rearmamento alemão, que se revelara na ousadia da escolha da cidade basca para campo de testes, arrasando-a, e a ascensão do fascismo na Itália, consubstanciada na ocupação da Etópia por Mussolini, em 1935, que duraria até 1941, duas agressões que prenunciavam o ocaso da democracia na Europa, o travamento ao avanço revolucionário da luta operária e, para culminar, a conflagração mundial próxima. O próprio Picasso prescrevia: “A pintura não foi feita para enfeitar paredes. A pintura é uma arma, é a defesa contra o inimigo”.
Esse o ânimo geral da Europa. E o que se passava na Paris onde Picasso vivia? Era só efervescência. Estava nos estertores o governo da Frente Popular, liderado por Léon Blum, afetando duramente o futuro do que então se rotulava de “causa comum” e, frente à ameaça do nazifascismo, ganhavam consistência movimentações para oferecer apoio à luta dos republicanos contra os nacionalistas na Espanha, onde a República definhava, e se empreendiam ações solidárias para acolher os refugiados espanhóis, na sua maioria intelectuais. Dentre outros, integravam esse comitê Picasso, Bergamín, Jean Cassou, Louis Aragon, Tristan Tzara e Paul Éluard, que num só mês ajudaram umas 500 pessoas, entre as quais os poetas Antonio Machado e Rafael Alberti. André Malraux, outro solidário que tinha lutado na Espanha, voltava dos Estados Unidos aonde fora pronunciar uma série de conferências para arrecadar fundos em socorro dos republicanos espanhóis.
Apenas negro, branco e cinza. As diferentes etapas da composição de Guernica puderam ser seguidas graças à série de fotos que Dora Maar, então companheira de Picasso, fizera dos desenhos e esboços, todos por sinal coloridos, mas, talvez por isso, usados pelo artista em preto e branco. Até hoje se discute essa mudança – o não uso de cores na pintura definitiva -, dando-se a isso várias interpretações. O competente Argan dá a sua: “Em Guernica não há cor, apenas negro, branco e cinza. Está excluído que Picasso tenha utilizado o monocromatismo para conferir uma tonalidade sombria e trágica ao quadro: tudo é claro, as linhas traçam com precisão os planos destinados a se preencherem de cor, mas a cor não está ali, foi embora”.
Quando perguntaram ao artista a razão da ausência de cor no quadro, ele respondeu irritado que “não tivera tempo de finalizar”. No entanto, existe uma explicação específica. Segundo Jean-Louis Ferrier, a ausência de cor se deveu a uma opinião de Paul Éluard, que acompanhava quase diariamente a elaboração da obra e o convenceu de que, como estava, refletia mais o atormentado universo a que se reportava. E é de Ferrier esta frase, ao aludir à morte de Picasso em 1973, aos 92 anos: “Durante três quartos de século, ele lançou sobre a arte um vento de tempestade”, de que Guernica foi prova contundente, já que bastou ao pintor, livrando-se das imposições ocasionais do conteúdo e do objeto, socorrer-se da forma para expressar, mais que um momento, a crise vivida então pela civilização ocidental.
Em 2007, a própria cidade de Guernica tinha consciência disto, pois, a propósito dos 70 anos da criação do famoso painel, 30 artistas se reuniram em abril, em San Sebastian (cidade basca) para homenagear o que os bascos consideram o símbolo universal dos horrores da guerra: no pátio externo de uma galeria de arte, foi instalado um painel branco, com as mesmas dimensões da obra de Picasso, para que interviessem sobre ele, com base em fragmentos do original distribuídos a cada um deles. Tinha-se o propósito de que o mural, refletindo a interpretação pessoal que cada um dos pintores atribuía a Guernica,como expressão aglutinadora de diferentes tendências, estivesse à disposição da população e dos visitantes durante os atos rememorativos da ocasião.
Desde a sua primeira exposição, a obra tem sido celebrada por escritores e poetas. Entre estes, não poderia estar ausente Paul Éluard, que lhe dedicou um poema (La victoire de Guernica), no qual preferiu glorificar a gente do povo cuja morte iria servir de exemplo à humanidade – “Homens reais para quem o desespero,/ alimenta o fogo devorador da esperança” e, juntos, irão abrir “a última brotação do futuro”. Para Rafael Alberti, conterrâneo de Picasso, na grande pintura a cor canta com outra ortografia “e a mão dispara uma nova escritura”. Para ele, como “uma onda e outra desolada”, Guernica significa “dor em vermelho vivo”, onde a arte “começa a ser um jogo explosivo”.
Anos depois da visita ao MoMa, impelido pela sensação de impacto que me causara a visão inaugural da obra, coube-me redigir um poema à memória da tragédia de Guernica, que integra o grupo de A Caligrafia do soluço (edição da Fundação Casa de Jorge Amado, 1996), de inspiração ibérica, que vai adiante reproduzido, rematando esta evocação.
REVISITANDO GUERNICA
(Via Picasso; Madri, 1994)
Onde álacres campinas de recreio
Abriam-se a canto e alarido escolar;
Onde antes havia o tempo sem abismos,
Coruscantes ruas, comércio lucrativo,
Familiar convívio de pacatos rostos,
Ah, tudo desapareceu na hora agra:
Algo se transmudou em chão rugoso,
A seara insone de insaciadas fomes.
Foram mil seiscentos e cinquenta
Mortos; oitocentos e oitenta e nove
Feridos e aleijados. Em Guernica,
As platibandas antes imponentes
Testemunharam o furor do sangue;
Enquanto avança o vento assoviando,
Fendas no chão de crenças, sonhos
Súbito de pedra viram coágulos.
Aquartelados nos oitões da sombra,
De alumínio e aço centuriões desatam
Os arsenais de mortas dinastias –
Metálico tropel, inferno a vômitos.
Meteoro cravado a ferro e fogo
Sobre chaga ainda incólume sem idade,
Guernica: Troia em terras de Numância;
Canudos no caminho de My-lai.
Como que pendentes das estatísticas
E dos noticiosos radiofônicos,
Milhares de pássaros em pânico,
Mulheres e homens por aqui passaram,
Sem olhos e mãos aos céus clamando.
Ao marulho de pés acorrentados,
Marcham por vales e nevados montes.
Marcham, e marcham para a eternidade.
Fontes:
Livros:
ARGAN. Giulio Carlo – Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
FERRIER, Jean-Louis – L´Aventure de l´Art au XXe siècle. Paris:
Chêne-Hachette, 1988.
GRIFFIN, Jasper – Homero. Madri: Alianza Editorial, 1980.
LOTTMAN, Herbert L. – La Rive Gauche: Intelectuales y política en Paris (1935-50). Barcelona: Editorial Blume. Versão espanhola: José Martinez Guerricabetia, 1985.
MATTOS, Florisvaldo – Estação de Prosa & Diversos. Salvador: Memorial das Letras, 1997.
__________ A caligrafia do soluço e Poesia anterior (Salvador:
Fundação Casa de Jorge Amado, 1996).
THOMAS, Hugh – A Guerra Civil Espanhola. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, dois volumes. Tradução: Hélio Pólvora e Moniz Sodré, 1964.
Na internet:
CRUZ, José Raimundo Gomes da – Guernica: perdoar, mas nunca esquecer. S/D.
DIEHL, Jörg – Destruição de Guernica por Hitler – Praticando Blitzkrieg no País Basco. Berlim: Der Spiegel, 27/04/2007.
HIDALGO, J. C. – Quando um quadro não é só arte. S/D.
# Florisvaldo Mattos é poeta e jornalista; autor de livros de poesia e ensaio, sendo último “Poesia Reunida e Inéditos (São Paulo: Escrituras Editora, 2011). Ocupa a Cadeira nº 31 da Academia de Letras da Bahia.

A vã busca de efeitos sem causa

img13Joaci Góes
Em minha primeira viagem internacional, em 1962, ainda como estudante, tive a rara oportunidade de encontrar as maiores figuras do mundo político e econômico dos Estados Unidos, começando com David Rockfeller, presidente do Chase Manhattan Bank, passando por Henry Kissinger, que nos brindou com duas substanciosas conferências – foi numa delas que conheci pessoalmente o professor Roberto Santos, futuro governador da Bahia -, os irmãos Ted e Bobby Kennedy, o primeiro concorrendo pela primeira vez ao senado, e o segundo como Procurador Geral de Justiça, e, por último, o Presidente John Kennedy que se fez acompanhar do embaixador brasileiro Roberto Campos e do embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon.
Entre os estudantes que participaram da memorável excursão, estavam os baianos Osmar Sepúlveda, Antônio Luis Calmon Teixeira, José Mascarenhas, Geraldo José Sampaio Araújo, João de Melo Cruz, Dulce Calmon, o saudoso João Sento Sé, Hamilton Nonato Marques, José de Freitas Mascarenhas e Thomaz Cruz, todos sobejamente conhecidos e respeitados por seus relevantes desempenhos profissionais. De outros estados, vale destacar a presença de Marco Maciel, futuro governador de Pernambuco e vice-presidente da República, e de João Alves Filho, ex-governador de Sergipe.
Não é difícil compreender o deslumbramento que se apossou daquela afortunada juventude, que voltava aos seus pagos, carregada de projetos, desejos e sonhos de ajudar o Brasil a deixar de ser eternamente o país do futuro, a partir do entendimento de que sem educação não é possível progresso autosustentável.
De fato, a experiência universal consagra o princípio de que a educação é o caminho mais curto entre a pobreza e a prosperidade. Hoje, mercê da incúria que tem marcado o tratamento que temos dado à educação como instrumento de nosso desenvolvimento, em lugar dos “dois brasis”, título do livro com que o sociólogo francês Jacques Lambert diagnosticou nossa realidade dicotômica de atraso e avanço da época, deparamo-nos com pelo menos três brasis: um minoritário, com todos os requisitos do primeiro mundo; um outro, mais amplo, do segundo mundo; e o último, largamente majoritário, inteiramente à margem dos benefícios da civilização atual, no mesmo padrão das sociedades pobres da África, da Ásia e da América do Sul, do terceiro mundo, portanto. E nada aponta para uma mudança desse quadro de afrontosa heterogeneidade social, com todo seu cortejo de inquietações, a mais tangível das quais se manifesta sob a forma da brutal insegurança que impõe a adoção de guetos como imperativo de sobrevivência física, enquanto persistirmos na prática da tola crença de que é possível atingirmos o patamar das sociedades mais avançadas com a manutenção da atitude irresponsável de sistematicamente negligenciarmos a educação, entendida como a transmissão de conhecimentos adequados ao pleno exercício de uma cidadania contemporânea, mas carregados dos valores éticos e morais que se ausentaram das salas de aula.
Todos os da minha geração, no que respeita ao Brasil de nossos sonhos, estamos agora compreendendo o poeta Raimundo Corrêa ao finalizar seu famoso soneto As Pombas: “E os desenganos vão conosco à frente, E as esperanças vão ficando atrás”..

Escapando do carnaval

consueloConsuelo Pondé de Sena
Não pensem que sempre fui avessa ao Carnaval da Bahia. Muito ao contrário, era foliã animada. Foliã comedida, porque, pertencendo à Antiguidade Clássica, meu pai e, depois, meu marido, não me permitiam dar vazão ao espírito carnavalesco. Além do mais, fazendo parte de uma geração de mulheres “reprimidas” pela educação, não me ficava bem assumir atitudes incompatíveis com as condutas impostas ao meu gênero. Nem eu mesma me permitiria transgredir, como toda mulher capricorniana que se preze.
Bem, ditas essas palavras introdutórias, não há como evitar o confronto entre o passado e o presente. O Carnaval da Bahia, aquele que frequentei quando criança e nos dias da mocidade, era um Carnaval voltado para a diversão, mas também recomendável às famílias.
Quando menina, ia com meus pais e irmãos para a Rua Chile, de onde assistíamos, das janelas do Edifício Montepio, dos consultórios de meu pai e do seu primo, Osvaldo Mendes, a passagem dos blocos. Dalí também aplaudíamos os carros alegóricos dos Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso. Na calçada do mesmo edifício, hoje sede da Fundação Gregório de Mattos, meu pai providenciava a locação de cadeiras para que admirássemos de perto a folia. Também costumávamos observar a festa das janelas e da varanda do IGHB, espaço disputado pela diretoria e sócios mais assíduos. Já mocinha, daquele lugar “paquerei” ou, melhor, fui “paquerada”, por meu futuro esposo, em determinado Carnaval dos anos 1950. Ele, como os demais colegas (lembro-me bem de Maia Tavares), trajando branco ou ternos claros, posicionavam-se na Av. Sete para “cortejar” as mocinhas, que por ali passavam, durante os intervalos dos desfiles dos blocos dos fantasiados e dos caretas. Em certo Carnaval, Plínio, de luto da avó materna, D. Sinhazinha Garcez, bem em frente do Instituto, conversava com os amigos, indiferente, como sempre, ao festejo. Quando por ele eu passava, tomava de repente emprestado o lança-perfume de Maia Tavares para galantear-me. Achei estranhíssimo o fato de ele estar de “fumo”na lapela, assistindo ao Carnaval, mas ele, muito mais tarde, confessou-me não ter havido mal algum em apreciar a movimentação da rua.
Tempo bom aquele, em que as mulheres se respeitavam e eram respeitadas pelos moços. É verdade que existiam aquelas senhoritas da “pá virada”, pois cada pai de família educava os filhos de acordo com suas regras, ou tinha autoridade para conter–lhes os “desatinos”. Mais reprimidas do que nós eram as filhas de Abelardo Parente, não me constando que Zilma e irmãs jamais houvessem desfrutado das alegrias das “batalhas de confetes”, muito menos dos bailes momescos, realizadas nos tradicionais Clubes de Salvador.
Também testemunhei e aplaudi, freneticamente, o primeiro desfile da “fubica” de Dodô e Osmar, uma inovação sem igual para aqueles tempos, novidade que fez o povo vibrar de animação. Pena que tenha inspirado essa máquina possante, o atual trio elétrico, a divulgar músicas “bobocas” e sons estridentes. Pior de tudo é contemplar, de longe, os que nela podem embarcar, enquanto os “cordeiros” padecem e o folião “pipoca” disputa espaço, no asfalto imundo das avenidas, tendo o máximo cuidado para não ser agredido, esfaqueado ou pisoteado.
Por isso, por ter a festa se tornado mais um espaço de “exclusão” social na minha cidade, além da grande violência que grassa por todo canto, procuro sair dela neste período. Desta vez, viajo para Fortaleza, a fim de descansar de Salvador, com seu intolerável índice de poluição sonora e a sujeira amontoada pelas ruas. Na bela capital cearense, vou ter a alegria de rever queridas amigas, além de curtir as tentadoras “compras” na Monsenhor Tabosa, Aldeota, Mercado Central e outros pontos de comércio.
O Carnaval da Bahia passou a ser o Carnaval dos turistas, dos visitantes que se empolgam diante dos apelos da mídia e vêm gastar seu dinheirinho numa das mais caras capitais brasileiras. São pessoas sedentas de “alegria”, que a compram, a peso de ouro, ao adquirirem indefectíveis abadás e terem acesso aos blocos “empreitados” por quem sabe ganhar dinheiro na Bahia. O mesmo digo em relação aos que se reúnem nos camarotes Vips e desfrutam das requintadas mordomias negociadas pelos empresários “da maior festa do planeta“.
Enfim, há gosto para tudo! Quanto a mim, quando a festa estridente e discricionária estiver rolando em Salvador, estarei bem longe, participando do cotidiano tranqüilo de um dos mais atrativos pontos turísticos do país e da convivência com sua simpática gente.


Do sombrio cinzento ao azul tropical – Lasar Segall

glGláucia Lemos
É Lasar Segall um dos grandes expressionistas que o mundo teve oportunidade de conhecer.  Tendo deixado o registro de sua obra grandiosa apenas em oito museus e galerias brasileiras e onze no exterior, foi, no entanto, um criador voltado profundamente para o conflito do homem do seu tempo. A projeção obtida não corresponde  ao peso de sua importância, por culpa  do comportamento reservado que assumiu, por questões étnicas.
Vera Beccari, sua biógrafa, declara ter sido o narcisismo o “elemento  mais determinante de sua personalidade”. Vivia muito bem consigo próprio e com sua arte, ele se bastava.  ‘Resguardava a privacidade e só a poucos dava acesso a seu lar. sobretudo ao ateliê onde trabalhava. Pode-se dizer que o ateliê de Segall era todo o seu universo, do qual  somente a três pessoas  as portas estavam abertas – Jenny Klabin Segall, sua segunda esposa (que deveria bater à porta antes de entrar), Lucy Citti Ferreira, modelo, colaboradora e amiga de particular afeição, e o próprio Segall.
Os primeiros quinze anos do artista foram vividos em Vilna, onde nascera em 1891, 21 de julho.   Durante aquele período assistiu à russificação idiomática da Lituânia, de que Vilna é capital, e a todos os rigores conseqüentes  às demonstrações de desagrado  e conspirações de revoltas. Vilna vinha de séculos passando de domínio em domínio. Teve assim Segall seus anos de infância, de adolescência e, mais tarde de adultIce  – mediante as visitas feitas à cidade natal  após sua ocupação pela Alemanha – povoados de recordações deixadas por um  grupo humano sobressaltado e sofrido.  Ao lado disso, sua infância padeceu também a marginalizaçào imposta aos judeus que eram expulsos de suas aldeias, em obediência a  decretos que pretendiam enfraquecê-los politicamente, e assim os empurravam para as aglomerações das cidades.
Cresceu, pois, Lasar Segall confinado na comunidade judaica, habitando cidades superpopulosas, onde a competição e a discriminação étnica dificultavam o equilíbrio e a tranqüilidade das famílias israelitas.  A religião e o iídiche (língua-mãe)  eram características da comunidade judaica, além das atividades proletárias, em todo o território que se encontrava sob domínio russo.
Todo esse cenário humano justifica, em parte, a amargura das figuras apresentadas pelo expressionismo de Lasar Segall. A segregação vivida na infância registrou-se no espírito do artista e veio a ser refletida no estilo de vida, mais tarde, enconchado em sua casa paulistana onde poucos amigos  eram acolhidos para dentro das janelas sempre fechadas.
Na infância, a alegria era a grande fuga para o campo, o reencontro com raízes que o atavismo resgatava em sentimento de prazer. Na adolescência afasta-se de Vilna, onde o forte espírito religioso do núcleo judaico  não permitiria sua dedicação à pintura. Muda-se para Berlim, onde altera um documento de identidade para, aos quinze anos, passar por dezesseis, e freqüentar uma escola de arte.  No ano seguinte consegue  ingressar na Academia Superior de Berlim, onde se ensinava a copiar o  natural com precisão fotográfica. Nessa ocasião, em consideração ao talento revelado, Segall conseguiu uma bolsa , por não ter recursos para pagar os estudos.
Entretanto, a criatividade livre do jovem aprendiz não concordou com o sistema rígido impresso ao  ensino da Academia, onde permaneceu por dois anos, já sentindo forte o interesse pelo impressionismo.. Egresso da Academia depois de haver conquistado o prêmio Libermann em exposição de 1909, dedicou-se por breve tempo a experiências impressionistas,  sem, entretanto, sentir-se identificado o bastante  para nelas permanecer. Queria  mais espaço para sua criatividade. O impressionismo que o libertou da Academia e sua mímese, também lhe impunha limites.  Transferiu-se então para Dresde, no ano seguinte, e  matriculou-se  na Academia de Belas Artes  onde, tornando-se aluno de Kühl recebeu a categoria de aluno-mestre, tendo direito a um ateliê onde trabalhar suas obras. Foi então que vendeu suas primeiras produções em gravura.
Em Dresde,  há cinco anos, o grupo A Ponte, que  deu os primeiros passos na direção da primeira escola de arte moderna, o expressionismo,  estava  influenciando a arte local. Dos quatro estudantes de arquitetura que se iniciaram em aulas com Otto Müller, um entusiasta da pintura inglesa, o grupo evoluiu influenciado pela reação ao impressionismo manifestada por Cézanne, como também pelas cores  “fauves”de Van Gogh e de Gauguin, e  pela liberdade de Munch. Foi nessa abertura proporcionada pela nova linguagem, que Lasar Segall encontrou o caminho.  O que de novo estava presenciando, constituiu a tradução do que  sentia cifrado em seu espírito.   Nesse preciso momento  Lasar Segall ergueu as asas da fantasia para o encontro com a arte descompromissada com os cânones acadêmicos impostos, mas inteiramente casada com a estética, na expressão mais legítima  da criação. Em Dresde  realizou suas primeiras obras expressionistas.
Logo mais chegou o ano de 1913 e ele veio ao Brasil pela primeira vez, expondo em São Paulo, durante o mês de março, 52 obras.  Trouse o momento inaugural da arte moderna para os olhos espantados da sociedade  paulistana que o recebeu com desconfiança silenciosa, em respeito ao prestígio do senador Freitas Valle,  e da família Klabin que o apadrinhavam. Não havia na sociedade paulistana da época muitas atividades intelectuais, de maneira que  aconteciam exposições   de todo tipo de arte, desde pintores afamados na Europa, a bolsistas estreantes sem maior talento, mas de famílias importantes, e até artesanatos que se apresentassem para  movimentar as salas, a que acorriam as personalidades com  boa vontade, sem muito questionamento em torno de qualidade.  Tudo se passava  mais  com o tom de  acontecimento social, onde  as pessoas reuniam-se para   conversar  amigavelmente. Oswald de Andrade na época mantinha o jornal O Pirralho, que noticia  “Lasarr Segal ( com grafia errada mesmo) é o nome do talentoso moço russo que acaba de abrir à rua São Bento 83, uma bela exposição de quadros”.  Não havendo em São Paulo uma consciência crítica, acredita-se que  embora não chegassem a agradar ao gosto acostumado à estética das academias,  também não poderiam suscitar um questionamento mais profundo.  Vera D’Horta  Beccari  em * Lasar Segall e o modernismo  paulista ” assim se expressa:
Alguns quadros de Segall, os mais expressionistas, devem ter causado nos expectadores as mesmas expressões de estranheza e surpresa que apareceram nos rostos dos visitantes da exposição de Anita Malfatti em 1917, nos primeiros dias, antes que fosse publicada a desastrosa nota de Monteiro Lobato no Estadinho do dia 20/12/1917. “
                       A crítica manifestou-se tratando-o  como um jovem artista de futuro promissor, classificando-o de impressionista e augurando que de futuro certamente viesse a corrigir “certos exageros “. Revelava absoluto desconhecimento de  tratar-se do autor de uma arte madura, um expressionista que trazia  notícia da evolução da arte na Europa.
Naquele mesmo ano, em junho, Segall levou 51 telas à exposição em Campinas, onde a crítica pareceu melhor informada e capaz de fazer  comentários a respeito do que fora antes  publicado em São Paulo filiando-o  ao impressionismo, o que era um equívoco, e  ressaltando em suas obras, o vigor do desenho. Nessa mostra, a tela intitulada O violinista, já denunciava uma influência do cubismo  anunciado por Cézanne.
Segall voltaria mais tarde  ao Brasil, em 1923, acompanhado de Margarete, sua primeira esposa.  Margarete não se adaptou  à vida provinciana de São Paulo e retornou à Europa. Então Lasar Segall casou-se com Jenny  Klabin, que conhecera na sua primeira visita a São Paulo, e era então  uma garotinha de 13 anos,   que o impressionara bastante.  Jenny venerara-o desde a adolescência  e se tornou uma esposa apaixonada, participando com ele dos trabalhos da SPAM, onde Segall veio a pontificar como líder e  como idealizador de atividades que elevaram a entidade  ao respeito da sociedade local.  E ainda sofrendo com ele a discriminação que veio a se instalar na ala dos chamados grã-finos, aderentes à SPAM apenas pelo modismo que os atraia ao modernismo.
Nos anos 30 o Integralismo ganhou enorme fôlego e conquistou partidários entre os pertencentes à cúpula social.  Dividiram-se os associados da SPAM em duas alas, e dos judeus e a dos grã-finos, esta congregando os adeptos em torno do poeta Guilherme de Almeida. A paixão conseqüente ao exacerbado nativismo  ergueu pesado muro entre a etnia e a arte, iniciando um injusto processo de desprestígio do artista dentro da sociedade, que o levou ao retraimento no qual permaneceu.
Lasar Segall naturalizou-se brasileiro e sua obra enriqueceu a pintura do Brasil, onde revigorou as criações substituindo o sombrio cinzento das telas pintadas na Rússia ou nela inspiradas, pelo colorido tropical, o verde, o azul e o branco luminoso que tornam o expressionismo segalliano brilhante e claro como as paisagens da sua pátria de adoção.
Podemos assim dividir em Lasar Segall a fase européia e a fase brasileira, perfeitamente distintas, embora em ambas identifiquemos o indiscutível traço, o grafismo preciso limpo e decidido,  absorvido provavelmente de Abel Segall, o pai que era um escriba do Tora, texto sagrado que exige traço puro e expressivo na sua feitura. Na Infância, Lasar conseguira que Abel lhe ensinasse a fazer a decoração das letras iniciais dos textos, o que, sem dúvida, era um precoce exercício para o grafismo admirável do grande expressionista judeu-russo-brasileiro. Teria falecido aos 76 anos, se de fato morressem os que viveram em estado de arte.

Barcos, saveiros e canoas

Luis Henrique by IndioLuís Henrique Dias Tavares
Barcos, saveiros e canoas fizeram o porto da cidade de Nazaré das Farinhas, dos anos finais do século XIX e nos 20, 30, 40 até os finais dos 50 do século XX. Eu os conheci em boa parte de minha infância e juventude.
Os barcos eram embarcações enormes, grandes velas panejando nos mastros e vasto interior reservado para cargas de café, açúcar e farinha destinadas às casas comerciais da Cidade do Salvador, nos exemplos de Manoel Joaquim de Carvalho, Magalhães e Cia. e Colavolpe, donos de armazéns ao longo do cais.
Os barcos eram comandados por Mestres de poucas falas e por embarcadiços que movimentavam os barcos na entrada e saída do porto de Nazaré com varas que dobravam sob o esforço de seus braços na entrada e saída daquele trecho do Rio Jaguaripe. Eram recolhidas na altura da Barra do Paraguaçu, quando as águas dos rios eram sacudidas pelo avanço do mar.
Os saveiros não tinham as dimensões dos barcos. Eram menores. Todavia serviam para a diversidade das mercadorias, a exemplo dos porrões e moringas fabricados em Aratuípe e dos sacos de farinha, laranjas, mangas e cestos de cajus. Por vezes levavam passageiros. Ficavam mal acomodados, ainda assim viajavam, o que é possível se entender por causa do preço das passagens – custavam tostões – e porque eram mais rápidos que os navios da Cia. de Navegação Bahiana, lentos e enjoativos no decurso de 12 horas de Salvador a Nazaré, somando-se mais o perigo de encalhar ao saírem de Itaparica.
Os barcos e os saveiros levavam passageiros de Salvador para Nazaré. Deviam viajar agachados nos porões. Alguns audaciosos subiam para as muralhas dos barcos e dos saveiros. Os marujos gritavam: Desçam, Desçam! Quase todos obedeciam, mas existiram casos de rapazes e moças que insistiam. Daí os acidentes. Sei o caso de uma jovem que insistiu e levou pancada do mastro. Foi jogada no mar e desapareceu.
As canoas eram compridas e podiam usar mastro e velas. Não recordo essas canoas navegando de Salvador para Nazaré ou de Nazaré para Salvador. Contudo sei das canoas compridas que navegavam de Maragogipinho para Nazaré carregadas de louças, em destaque na Semana Santa quando traziam caxixis para as noites de singular beleza, caxixis iluminados por luzes trêmulas de fifós. Ah, as feiras de caxixis de minha infância!
Volto aos barcos para destacar os Pires I, Pires II e Pires III. Grandes e belos. Por isso escolhi o Pires II para comemorar o meu noivado com Laurita, setembro de 1950. Minha cunhada Rachel o documentou com a foto que ilustra este texto.
Salvador, agosto de 2010
* Este texto foi concluído pelo escritor Luis Henrique Dias Tavares, em 16 de agosto de 2010, para ser um dos prefácios do livro Baía de Todos-os-Saveiros, do fotógrafo Nilton Silva. O texto seria acompanhado da foto acima, feita no início da década de 1950, em Nazaré, pela então acadêmica de Medicina Rachel Serra Pontes, irmã de Laurita, esposa do escritor.

Onde está Cristo no Natal dos nossos dias?

consueloConsuelo Pondé de Sena
Procuro-o na esperança de reencontrá-lo, cada vez mais ausente na Festa da Natividade. Busco-o, sofregamente, nos corações dos homens, nas manifestações de fraternidade universal, no cenário afetivo das famílias bem constituídas. Encontro-o e apaziguo o meu coração.
Querem-no muitos, porém, nas visíveis e comerciais demonstrações de preponderância do estranho mundo de hoje. E, em nome dessa mensagem distante dos seus ensinamentos revertem suas lições de solidariedade e de caridade cristãs numa banca de negócios, desvirtuando o sentido do Natal.
Diante dos meus olhos contaminados pelos bombardeios midiáticos, por mais que o evite, só enxergo: consumismo, endividamento, desarmonia, violência, descontrole e falta do verdadeiro amor. Percebo, contristada, diante da lamentável realidade dos tempos atuais, que o menino Jesus não mais se encontra na manjedoura humilde de Belém.
Alijaram-no do modesto e santificado espaço onde nasceu para iluminar o mundo e pretendem conduzi-lo, principalmente, para os centros de negócios e de consumo, onde reinam o gosto pelas coisas materiais e predomina a ambição do lucro. Onde quem comanda é o vil metal que corrompe os homens.
Retiraram-lhe a exígua veste que encobria seu corpinho recém-nascido, para tentar adorná-lo com as suntuosidades e as pompas fabricadas pelos indutores do consumo, pelo apetite desenfreado dos gananciosos, dos vendedores de ilusões passageiras, dos corruptores de todas as feições.
Substituíram a luz da estrela guia, que orientou os passos dos Reis Magos até a Sagrada Família, pelas artificiosas, artificiais e feéricas luminosidades, nutridoras dos desvarios dos fabricantes e consumidores de quinquilharias.
Dessacralizaram o Natal de Jesus Cristo. Esqueceram-se da Natividade, da mensagem maior da grande da sua peregrinação pelo mundo. Desconhecem ou olvidaram suas palavras: “Eu vim para que tenham vida, e tenham-na em abundância” (João, 10: 10). Baniram da maior festa da Cristandade as lições de humanidade e compaixão, os sentimentos de piedade e comunhão com o divino.
Durante anos e anos “fabricaram” guerras assassinas, desfalcaram inúmeros lares de vidas preciosas, sob o disfarce criminoso da luta contra o terrorismo, rotulando-a de defesa da Democracia. Promoveram discórdias, espalharam medo, derrubaram torres, sacrificaram e aprisionaram inocentes, movidos, principalmente, pela disputa do poder e do domínio econômico.
Desconsideram a profundidade dessas palavras: “Amai vossos inimigos, abençoai os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam“ (Mateus, 5:44).
Desconhecem ou se esqueceram do que está escrito em João, 14:27: “Deixo-vos a paz, a Minha Paz vos dou: não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize“.
Que é feito da Paz? Da pregação de Jesus Cristo e dos Apóstolos, seus seguidores, das lições que repassaram, para todo mundo? Que é feita, hoje, da missão Salvadora para a qual Jesus assumiu a condição humana?
Por que jamais se praticaram tantos crimes e tanta violência? Por que substituíram o presépio pela árvore de Natal, o primeiro símbolo de um instante significativo para a história da humanidade, o segundo, uma bela e, cada vez mais, sofisticada sedução comercial para enfeitar, com bolas e cores, o Natal de todo o mundo?
Trocaram o ódio pelo amor, a generosidade pelo egoísmo? O Bem pelo Mal? Não, não é isso que desejamos. Muito ao contrário. Esperamos que a festa do nascimento do Senhor reencontre a pureza e a simplicidade dos tempos que se foram.
Reajamos todos, os que têm e vivem na Fé, a toda essa “onda” consumista e desespiritualizada. Vivamos alegremente, pois, “O coração alegre é bom remédio” (Provérbios, 17: 22).
Natal é nascimento e crença na vida. É amor e compreensão. Tolerância e caridade. Que renasçam, pois, em nossos corações as mensagens de concórdia e que, neste mundo dominado pelo imediatismo e pela ambição, pela discórdia e pela malquerença, ainda possa germinar, nos abençoados pela Fé, a excelsa luz da Esperança.

A liderança da educação em Feira de Santana

ebEdivaldo Boaventura
Em linha direta, gerações de professores foram responsáveis pelo crescimento da educação em Feira de Santana. Certamente que muito favoreceu a proximidade de Salvador, que concentrava não somente quase toda a educação superior como também  o  ensino médio. Feira está para Salvador, urbana e educacionalmente,  como Campinas para a cidade de São Paulo.  Haja vista o número de professores que ensina na metrópole soteropolitana e na cidade princesa.
Sucessivas iniciativas  conduziram à criação da Universidade. Destacam-se  a Escola Normal, o  Colégio Santanópolis,  Faculdade de Formação de Professores. Na  década de trinta, fixa-se  a liderança  do professor Áureo  de Oliveira Filho, na educação secundária,. O  pioneirismo do  Colégio Santanópolis educou  a juventude de Feira  e atraiu jovens da região e  de toda a Bahia.Se o ensino superior demorou a se interiorizar, começando a partir dos anos sessenta,  por sua vez,  a então educação secundária, ginásios e colégios,  progrediu muito lentamente. O Santanópolis de Feira, o Colégio Taylor Egídio de Jaguaquara, o Ginásio Municipal de Ilhéus  e o Clemente Caldas de Nazaré das Farinhas, foram, pontualmente,os estabelecimentos pioneiros  do ensino secundário no  interior da Bahia.
O ensino médio público se concentrou em Salvador. De 1836, quando se criou o Liceu Provincial,  até 1947, com o surgimento dos ginásios de bairro, cantávamos apenas com um único  colégio  público  secundário,  o Colégio Central, além das escolas normais.
Antes do Santanópolis, o governo Góes Calmon instituiu a Escola Normal, em 1925, em Feira. Contribuição importante para a formação de professores primários , era prefeito Arnold  Silva. A dissertação Mestras do Sertão,  de Antônio Roberto Seixas Cruz  ( Uefs) demonstra o desempenho profissional  das primeiras normalistas.
Todavia, bem antes da Escola Normal e do Santanópolis, tivemos as escolas públicas de primeiras letras e do fundamental, no final do século XIX e início do XX., demonstração  da política educacional da República positivista.A imponência dos prédios escolares, como  o Grupo Escolar J.J. Seabra, onde hoje funciona o Centro Universitário de Cultura e Arte ( Cuca), atesta a importância  que foi dada á educação primária da classe média, pela administração municipal,  do mesmo modo os edifícios das escolas Maria Quitéria  e João Florêncio Gomes.
O Colégio Santanópolis elevou o nível intelectual da cidade e quebrou a monotonia  urbana  com a presença agitada e irrequieta dos ginasianos. Para tanto, Áureo Filho congregou  médicos e advogados, a elite profissional Com a última reforma Capanema passou de ginásio a colégio. Inovou no ensino e estimulou a cultura de diversos modos.
Poucos fizeram tanto pela educação de Feira  como o professor Áureo Filho, estendendo  a sua luta  pelo ensino onde estivesse, em nossa Feira, em Salvador, na Assembléia Legislativa da Bahia, na presidência do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino e, principalmente, na criação da Universidade Estadual..
Uma  outra geração de professores se manifesta  com a  criação da Faculdade de Formação de Professores, a partir de 1968, com cursos de Letras, Estudos Sociais e Ciências. Destaca-se a bióloga  Marinita de Oliveira Menezes, filha do professor Áureo,   coordenadora do  primeiro Curso de Ciências fora da capital. Formada em História Natural, especializou-se em Zoologia Animal Comparada, instalou moderno e completo Laboratório de Ciências,  adquirido em uma fundação ( Fundbec) de equipamentos  para o ensino científico apoiada peal  UNESCO. Dentre os alunos formados na primeira turma, sobressaiu–se   José Raimundo de Azevedo,orador da turma, ex-prefeito de Feira e  atual secretário de Educação.
A etapa seguinte foi o da Universidade, quando surgem novas lideranças, como a do  professor Gil Mário de Oliveira Menezes, neto do professor Áureo, duplamente graduado em Educação Física e em Artes  Plásticas. Na linha direta, é a terceira geração da família  consagrada  à  educação e à cultura de Feira, cada vez mais enriquecida com as suas obras de arte: monumentos ao Caminhoneiro e a Georgina Erismann.

Incentivo ao crime

img13Joaci Góes
O Brasil lidera em mortes no trânsito, relativamente ao tamanho de sua frota de veículos. São 40.000 mortes por ano. Mais do que em qualquer das guerras que ocorrem, em paralelo, mundo afora.
A repetição de ocorrências trágicas que chocam a opinião pública tem feito do tema um dos mais presentes na mídia diária de todos os tipos e tamanhos.
Alguém já disse que, em nosso país, o problema decorre do fato de que “motoristas de hoje dirigem carros de amanhã, em estradas de ontem”. Além da propriedade da definição, urge acrescentar que não há nação desenvolvida ou em desenvolvimento onde o chamado crime do automóvel seja tão impune quanto na Terra de Santa Cruz. Enquanto o leitor conhece uma ou mais pessoas desaparecidas em acidentes de trânsito, certamente não conhecerá um caso, sequer, de um responsável por esses acidentes fatais que tenha sido condenado. Na melhor das hipóteses, já ouviu falar de um ou outro episódio em que ao responsável foi formalmente imposta à realização de serviços comunitários, sob negligente supervisão do seu cumprimento. Nós, particularmente, nem disso temos conhecimento. A regra vigorante é a de que, independentemente do grau de culpa do responsável pelo acidente, nada, absolutamente nada lhe acontecerá no plano punitivo. Os exemplos escabrosos são a cada passo fornecidos por motoristas relapsos que, embriagados ou por dirigirem em alta velocidade, provocam vítimas fatais.
Apesar de todos estarem de acordo que as punições previstas para o chamado crime do automóvel são inequivocamente insuficientes, nada se faz de concreto para mudar este lamentável estado de coisas em que nos encontramos. A essa ominosa apatia diante do contexto aplica-se a mesma observação de Mark Twain sobre o clima: “Todo mundo fala do tempo, mas ninguém faz nada”.
Queremos lançar um repto aos parlamentares baianos, 39 deputados e três senadores: se um deles, com o apoio da bancada, apenas, tomar em suas mãos a tarefa de liderar a reforma das leis que punem os delitos do trânsito, teremos uma legislação que contribua, efetivamente, para a redução do número de mortes gratuitas, em tempo relativamente curto. Para tanto, basta determinação e espírito público.
Para justificar essa convicção, evocamos o nosso próprio trabalho, como relator do Código de Defesa do Consumidor. Com o propósito de evitar o esgarçamento do esforço legislativo, na abordagem perfunctória de uma grande variedade de temas, optamos pela eleição de um que fosse suficientemente importante para justificar a concentração, nele, do nosso empenho. O resultado é o que se sabe: conseguimos transformar em realidade uma longa expectativa do consumidor brasileiro, frustrado por não ver se transformar em lei qualquer dos 13 projetos que transitavam no Congresso. Com determinação, transparência e humildade, escutamos os mais amplos setores da sociedade brasileira, de um modo que nos assegurou a aprovação do projeto em tempo relativamente curto, com a peculiaridade, sem precedentes, no Congresso Nacional, segundo os decanos Nelson Carneiro e Ulysses Guimarães, de não haver sofrido uma emenda sequer, entre as mais de mil que foram apresentadas nas duas casas do Congresso. Aí está o CDC servindo à sociedade brasileira.
Enquanto um ou mais parlamentares cuidam da legislação do trânsito, diversos temas poderiam ser eleitos para o patrocínio de outros membros de nossa bancada. Seria, ao mesmo tempo, um modo criativo e superior de sair do ramerrão do toma-lá-dá-cá que tanto tem contribuído para rebaixar o conceito dos políticos perante a Nação, ao tempo em que contribuiria de maneira tangível para restaurar o perdido prestígio da Bahia como unidade federativa líder no protagonismo de grandes iniciativas, pela exemplar substituição da mentalidade de escassez, reinante, por uma mentalidade de abundância, que é a forja dos grandes povos.

As crianças da legião

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Gláucia Lemos

Ler Clarice Lispector é um contínuo exercício de interpretação. Clarice  reinventa significados, recria palavras com liberdade que induz o leitor a intrigantes reflexões. Estas  a que  nos acostumamos desde A paixão segundo GH, Perto do coração selvagem, A hora da estrela,e sobretudo Água viva, que nos parece tudo o que se possa criar como uma prosa poética  inflamada,  destinada a ferir macia e inevitável, a sensibilidade do leitor.
Neste A Legião estrangeira, – Rocco, ed. 1978 – o editor reuniu treze contos cuja unidade está contida na poética voltada principalmente para a domesticidade.
Detenho-me – por me chamar a atenção e causar perplexidade – na natureza das crianças desses contos, protagonistas ou não. Não são crianças inocentes. Não têm alma branca nem candura de anjos. Ao contrário. As crianças da Legião, a Sofia, a Ofélia Maria, o menino de óculos, o menino menor, todos revelam sagacidade malicia e até maldade, não obstante nem sempre se ter que esperar angelitude nos pequeninos.
Essas crianças são ora calculistas, ora capazes de imaginar estratégias de comportamento, ora levadas a atitudes ofensivas inflamadas ou carregadas de frieza.
Uma revisitação à infância nas suas personagens, mas da criancice contemplada pelo lado malicioso e impertinente. Até mesmo na assunção de hipóteses como a do menino menor que, desejando a permanência do macaco do qual a narradora pretendia livrar-se, admite a possibilidade não de  que a mãe também viesse a se afeiçoar ao animal, mas a de que o macaquinho viesse a “cair da janela e morrer lá embaixo’, ou ainda : “ E se eu prometer que um dia ele vai adoecer e morrer, você deixa ele ficar?”
        A Sofia, uma garota que sente atração pelo professor gordo, de ombros contraídos, deselegante no seu paletó curto e desagradável na contensão da sua impaciência. Ela o vê como alguém difícil de se amar, mas o quer, e até divaga com ele todas as noites. No entanto, para atraí-lo, sabendo  também não ser flor que se cheire, e igualmente ser difícil de se amar,  vai à luta pelo lado avesso, tumultuando as aulas, atrevida, indisciplinada e contestadora, enraivecendo-o, somando à desagradabilidade do mestre, sua própria desagradabilidade. Querendo amor pelo caminho esconso da impertinência.
A Ofélia Maria sabe tudo, torna-se antipática por estar sempre pronta a um comentário ou colocação mais sábios que os dos presentes. Aconselha à narradora, sem ser consultada, sobre qualquer assunto, até que, de tanto entender de tudo e de tanto saber cuidar com sua pretensiosa superioridade, acaba por destruir aquilo que todos mais parecem amar no momento que vivenciam. E, irresponsável, não assume.
O menino de óculos atormenta-se por não ter consciência da própria inteligência. Vive vacilando ante a instabilidade de humores da família que ora o reconhece, ora se mostra indiferente. Confuso, arma estratégias, resolve agir sem naturalildade, sabe que pode fingir o que desejar, então se demora construindo a imagem que pretende aparentar em determinado dia que lhe está programado. Em um precoce maquiavelismo, vive um processo existencial que acimenta as bases de um caráter carregado de torpeza.
A menina ruiva é a única a escapar do elenco de pequenos anjos decaídos, e também a protagonista do conto mais encantador e lírico da seleção de contos poderosos e encantadores na construção singular de Clarice Lispector.
Sem me preocupar com os temas evocados, tenho me detido na particularidade das personagens mirins e sua característica especial. No entanto A Legião Estrangeira é muito mais que crianças difíceis. É a angústia dessa busca incompreendida que se padece na adolescência; é a inexplicabilidade da amizade que se merece pelo mero fato de existir; é o tédio de obedecer ao cotidiano insosso e sem perspectiva, tal se fosse dogma; é a humilhante carência afetiva em confronto com a sordidez da vaidosa prepotência; é a velha Mocinha carregando todo o abandono e miserabilidade da condição humana; é a Quinta históriaque após oferecer quatro formas de contar como livrar-se das baratas, sintetiza a quinta história em duas linhas sob um título pelo qual só um autor corajoso arriscaria ferir a imaginação do leitor estupefato. Finalmente, é O Ovo que se enfiou entre as páginas do livro para que a autora se estendesse de premissa em premissa, desenvolvendo sua capacidade de filosofar profunda e demoradamente sobre a própria condição humana, e a condição da própria narradora, enquanto ser situado na heterogeneidade do universo. Até que, despertando para o quão longe se permitira, perguntar: Mas, e o ovo? E confessar: enquanto eu falava do ovo, eu tinha esquecido do ovo.
         Isso é Clarice, um pouco do muito de Clarice Lispector em a Legião Estrangeira, do qual outros já tenham falado mais e melhor. Dela que, dominando a palavra em exercício pessoal, a ela se entrega, permitindo que se espalhe, se construa e desconstrua, na simbiose em que se alimentam, palavra e autor que se confundem e se realizam, pois assim se faz preciso.

Discurso do Rio Cefiso

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(Na Instalação da Academia de Letras de Itabuna)

Aramis Ribeiro Costa
Senhores Fundadores da Academia de Letras de Itabuna:
Precisaríamos ir muito longe, uma excursão no espaço e no tempo, para encontrarmos as vertentes históricas desta solenidade que nos reúne para a fundação de uma nova academia de letras. Teríamos, antes de tudo, de percorrer vagarosamente os jardins que abrigavam o túmulo do herói ático Academo, às margens do Rio Cefiso, próximo de Atenas, nos quais Platão dialogava com seus peripatéticos discípulos, a perquirir questões do saber, nas tardes ensolaradas da Grécia esplêndida. E depois, quase quatro séculos atrás, transportando-nos de um momento luminoso da humanidade a outro, visitar a academia de Richelieu, nos tempos gloriosos da França de Luís XIII.
Não era a primeira academia dos tempos modernos. O poderoso cardeal e primeiro-ministro, com sua Académie Française, praticamente dava continuidade a duas outras, ambas criadas em Paris: a Académie de Poésie et de Musique, em 1570, e a Académie du Palais, em 1576, esta última para cuidar da língua e da literatura francesas. E houvera também, na Itália, entre 1582 e 1583, certa Accademia della Crusca, instituída por cinco florentinos para proteger e purificar o idioma italiano. Mas a iniciativa do Cardeal de Richelieu em 1635 seria tão importante e tão prestigiosa que passaria a inspirar as demais academias de letras, sempre com o objetivo de cultuar a língua e a literatura, além de definir o vocabulário.
Só após essas duas visitas, à Grécia de Platão e à França de Richelieu, é que voltaríamos ao Brasil, onde a inspiração da Académie Française foi decisiva para o sodalício que Machado, o admirável Bruxo do Cosme Velho, fundaria com seus ilustres pares no ofício de escrever e amar a cultura.
Era no apagar das luzes do século XIX, na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, porém capital da República e referência cultural da nação brasileira. Fundada em 1897, quando a humanidade jamais poderia vislumbrar, nem mesmo com a exorbitante imaginação de um Jules Verne, os maravilhosos avanços da ciência e da tecnologia do século seguinte, a Academia Brasileira de Letras, longe de apagar-se no obsoletismo e no desprestígio, cresceu em importância e consideração, a ponto de tornar-se um objetivo glorioso dos que aspiram à imortalidade literária no Brasil.
Como na França a Académie Française, entretanto, não foi a ilustre Academia Brasileira a primeira a ser instituída em nosso país. Esse privilégio coube à Bahia. Chamou-se Academia Brasílica dos Esquecidos, e foi fundada em Salvador, em 7 de março de 1724, reunindo quarenta e quatro poetas e prosadores, uma iniciativa do vice-rei dom Vasco Fernandes César de Meneses, Conde de Sabugosa. A esta se seguiram a Academia dos Felizes, no Rio de Janeiro, em 1736, e a Academia dos Renascidos, outra vez em Salvador, em 1759, agora com quarenta acadêmicos, no modelo da Académie Française. Todas de vida curta. Como de vida curta, curtíssima, foi certa Academia Baiana de Letras, agremiação literária formada por vinte e cinco jovens escritores em nosso estado, pouco antes da fundação da Academia de Letras da Bahia.
A data de fundação da Academia de Letras da Bahia, 7 de março de 1917, não foi um acaso, porém propositadamente escolhida para lembrar a Academia Brasílica dos Esquecidos. Isso levou o quase perpétuo presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, que via na concordância das datas de fundação um propósito de continuidade, a nos recomendar que inscrevêssemos no brasão de nosso sodalício: “Primeira Academia de Letras do Brasil”. Não o fizemos, não o faríamos, preferindo a recomendação histórica e altamente louvável de nossos fundadores: “Servir à Pátria honrando as Letras”. E não fazemos mal, quando também honramos a Pátria, servindo às letras.
É justamente o que me parece tenham se transformado as modernas academias de letras, a começar pela nossa, a Academia de Letras da Bahia, uma instituição permanentemente a serviço das letras. A velha concepção de uma agremiação fechada, a reunir quase secretamente quarenta idosos acadêmicos, que entre um gole de chá e uma fatia de bolo discutem a chave de um soneto, ficou definitivamente no passado, se é que, em algum lugar e em alguma época, alguma academia de homens de letras tenha se resumido a tão inúteis reuniões. O fato é que, hoje, não se pode conceber uma academia de letras que não seja um núcleo disseminador de cultura, aberto ao público e muitas vezes voltado para esse público.
A Academia de Letras da Bahia possui uma intensa programação cultural, e por que não dizer educativa, que abrange cursos, seminários, colóquios e encontros de literatura, concursos literários, publicações, exposições, palestras, conferências, lançamentos de livros, além das atividades acadêmicas, como sessões ordinárias, reuniões de diretoria, eleições de novos membros, posses, sessões de saudade, comemorações de centenários e outras sessões especiais comemorativas. A nossa biblioteca, cada vez mais especializada no livro baiano, e nosso arquivo, que guarda a memória da instituição e de seus membros, encontram-se permanentemente à disposição dos pesquisadores, além de atuarem em programas educativos e re-socializantes, por meio do sistema de estágios com orientação e fiscalização de nossos funcionários. Nosso site e nossa sala de informática nos colocam na linha de frente na informação da cultura e na pesquisa.
Entendemos que já não cabem, e principalmente não cabem em nossa realidade baiana contemporânea, instituições culturais isoladas, que as iniciativas culturais se fortalecem com as parcerias, e hoje temos, na Academia de Letras da Bahia, parceiros importantes para as nossas realizações, como a Secretaria de Cultura da Bahia, a Fundação Pedro Calmon, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, a Fundação Casa de Jorge Amado, a Universidade Federal da Bahia, a Universidade Estadual da Bahia, a Universidade Estadual de Feira de Santana, a Brasken, a Eletrogóes, e o Goethe Institut.
Então, senhores fundadores da Academia de Letras de Itabuna, o que fazeis nesta noite solene, e esperamos todos que de fato assim seja, é inaugurar não uma agremiação reservada aos seus eleitos, mas instituir, por meio de vosso compromisso acadêmico, um poderoso instrumento de disseminação das letras, da literatura e da cultura em seu sentido mais amplo, a favorecer não apenas a vossa encantadora cidade de Itabuna, mas toda a vossa ampla, bela e fecunda Região do Cacau, a beneficiar a própria Bahia e o próprio Brasil, já tão enriquecidos ambos por vossa preciosíssima literatura.
A vossa academia — se me permitis, a nossa academia, já que me concedeis o privilégio e a honra de me tornar vosso membro correspondente — herda a tradição de uma literatura poderosa, tão poderosa que valeria, ela isolada, por toda uma literatura nacional. Bem mais que pelo poder econômico do cacau, tantas vezes assolado pela devastadora praga da vassoura-de-bruxa, terá sido a força impressionante e a excepcional qualidade da vossa literatura a inspirar Adonias a proclamar estas terras sul-baianas de Nação Grapiúna. Cedesse eu, neste momento, à tentação de citar, um por um, todos os grandes escritores e poetas, mortos e vivos, que nasceram nestas terras cacaueiras do Sul da Bahia, os chamados grapiúnas, e certamente transformaria estas breves palavras de abertura de vossa solenidade, numa interminável proclamação de nomes notáveis. Permiti-me, entretanto, citar apenas quatro dos que partiram e jamais partirão, e que se encontram entre os patronos desta nova academia: o próprio Adonias Filho, Jorge Amado, Sosígenes Costa e Jorge Medauar. Por meio deles, homenageio todos os outros, inclusive e principalmente os que estão vivos e produtivos, a nos surpreender a cada instante com o vigor do seu talento. Permiti também, e eu o reivindico como um favor pessoal, que eu agradeça à minha editora e amiga Maria Luiza Nora, e ao meu amigo e confrade, poeta e escritor Cyro de Mattos, e por extensão a todos vós por vossa generosa concordância, o privilégio do título que esta noite me é concedido.
Ditas estas palavras, só me resta vos desejar que vosso Rio Cachoeira vos inspire, como inspirava o Rio Cefiso a Platão e seus discípulos, e que possais realizar com vossa academia, com nossa academia, todos os altos desígnios que honram a vossa tradição literária.
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