Páginas

quarta-feira, 23 de março de 2016

ODEBRECHT DECIDE DELATAR NO DIA EM QUE SOFRE DEVASSA DA PF




Odebrecht decide delatar no dia em que sofre devassa da PF

MARIO CESAR CARVALHO

DE SÃO PAULO

22/03/2016 20h52

Rivaldo Gomes/Folhapress


Presente em 21 países, com 168 mil funcionários, o Grupo Odebrecht tem receita de R$ 107,7 bilhões e lucro de R$ 498 milhões ao ano. Muitos de seus braços são investigados pela Operação Lava Jato, o que levou em junho à prisão do presidente da empresa. Na imagem, funcionários limpam a fachada da sede, em São Paulo, após protesto. Conheça 22 braços do grupo
O grupo Odebrecht decidiu fazer um acordo de delação de seus principais executivos, inclusive o ex-presidente Marcelo Odebrecht, no dia em que foi alvo daúltima fase da Operação Lava Jato. A força-tarefa da Lava Jato, porém, não confirma o fechamento do acordo.
Um procurador ouvido pela Folha sob a condição anonimato disse que numa escala de zero à dez, as negociações com o grupo estão no nível 0,01.
Os investigadores dizem ter identificado um departamento de pagamento de propina que funcionava dentro da empresa.
Marcelo Odebrecht, que presidia a maior empreiteira e o quarto maior grupo privado do país, está preso desde junho do ano passado.
A delação de Marcelo tem potencial explosivo por causa das relações que o grupo manteve com o PT e, especialmente, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Foi por interferência de Lula, por exemplo, que a Odebrecht Defesa e Tecnologia se tornou parceira de um grupo francês num projeto de submarino atômico orçado em R$ 32 bilhões. Não houve concorrência na escolha da empresa que se associou aos franceses.
Outros quatro executivos que já foram condenados, junto com Marcelo, também têm a intenção de fazer o acordo de delação, segundo a Folha apurou. São eles: Márcio Faria e Rogério Araújo, ainda presos, e Cesar Ramos e Alexandrino Alencar, que estão em liberdade.
Em nota divulgada nesta terça (22), a empresa, que negava enfaticamente ter participado do esquema de pagamento de propina em contratos com a Petrobras, reconhece que distribuiu suborno para obter contratos.
A Odebrecht afirma que a apuração da Lava Jato "revela na verdade a existência de um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema partidário-eleitoral do país".
A empresa faz a ressalva de não ter "responsabilidade dominante" sobre o esquema de corrupção investigado pela Lava Jato e diz que continua "acreditando no Brasil".
A Odebrecht anunciou que está em negociações avançadas para fazer parte do programa Pacto Global, das Nações Unidas, do qual fazem parte corporações que defendem valores como o combate à corrupção, a proteção ao meio ambiente e a defesa dos direitos humanos.
O grupo afirma que também vai "adotar novas práticas de relacionamento com a esfera pública".
O acordo de delação está sendo negociado pelo advogado Theo Dias.
ACORDO-ÔNIBUS
O número de funcionários que podem fazer delação não está definido e deve ser bem maior do que os cinco já condenados. A Odebrecht quer adotar o modelo da Camargo Corrêa, que fez uma convocação de seus executivos que tiveram envolvimento em corrupção e estavam dispostos a contar o que sabiam em troca de uma pena menor.
A Odebrecht também deve fazer um acordo de leniência, que é uma espécie de delação para empresas. O valor da multa ainda está em negociação, mas será superior ao R$ 1 bilhão pago pela Andrade Gutierrez em seu acordo de leniência.
O Ministério Público Federal queria que a empresa pagasse uma multa de R$ 5 bilhões, valor que foi considerado irreal pelos acionistas e negociadores da Odebrecht.
Marcelo sofria pressões para fazer o acordo, inclusive do próprio pai, Emílio Odebrecht. Emílio temia pelo futuro do grupo se não houvesse acordos de delação e de leniência. Na avaliação de executivos da Odebrecht, o grupo corria o risco de encolher e até quebrar por falta de crédito. Havia o temor de que a empresa fosse considerada inidônea pela Controladoria-Geral da União e proibida de celebrar contratos com o poder público no Brasil.
Em nota, a empresa afirma: "As avaliações e reflexões levadas a efeito por nossos acionistas e executivos levaram a Odebrecht a decidir por uma colaboração definitiva com as investigações da Operação Lava Jato".
Prossegue o texto: "Esperamos que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor".
O Ministério Público Federal, porém, afirmou que "não fez acordo com a Odebrecht ou seus executivos". "Qualquer acordo, neste momento, será restrito às pessoas que vierem antes e cuja colaboração se revelar mais importante ao interesse público", diz o órgão.
Fundada há 72 anos, o grupo tem 130 mil funcionários e faturou R$ 107,7 bilhões em 2014.
Veja íntegra da nota da Odebrecht.
*
As avaliações e reflexões levadas a efeito por nossos acionistas e executivos levaram a Odebrecht a decidir por uma colaboração definitiva com as investigações da Operação Lava Jato.
A empresa, que identificou a necessidade de implantar melhorias em suas práticas, vem mantendo contato com as autoridades com o objetivo de colaborar com as investigações, além da iniciativa de leniência já adotada em dezembro junto à Controladoria Geral da União.
Esperamos que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor.
Na mesma direção, seguimos aperfeiçoando nosso sistema de conformidade e nosso modelo de governança; estamos em processo avançado de adesão ao Pacto Global, da ONU, que visa mobilizar a comunidade empresarial internacional para a adoção, em suas práticas de negócios, de valores reconhecidos nas áreas de direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção; estabelecemos metas de conformidade para que nossos negócios se enquadrarem como Empresa Pró-Ética (da CGU), iniciativa que incentiva as empresas a implantarem medidas de prevenção e combate à corrupção e outros tipos de fraudes. Vamos, também, adotar novas práticas de relacionamento com a esfera pública.
Apesar de todas as dificuldades e da consciência de não termos responsabilidade dominante sobre os fatos apurados na Operação Lava Jato - que revela na verdade a existência de um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema partidário-eleitoral do país - seguimos acreditando no Brasil.
Ao contribuir com o aprimoramento do contexto institucional, a Odebrecht olha para si e procura evoluir, mirando o futuro. Entendemos nossa responsabilidade social e econômica, e iremos cumprir nossos contratos e manter seus investimentos. Assim, poderemos preservar os empregos diretos e indiretos que geramos e prosseguir no papel de agente econômico relevante, de forma responsável e sustentável.
Em respeito aos nossos mais de 130 mil integrantes, alguns deles tantas vezes injustamente retratados, às suas famílias, aos nossos clientes, às comunidades em que atuamos, aos nossos parceiros e à sociedade em geral, manifestamos nosso compromisso com o país. São 72 anos de história e sabemos que temos que avançar por meio de ações práticas, do diálogo e da transparência.
Nosso compromisso é o de evoluir com o Brasil e para o Brasil.
-

O NÚCLEO DA PROPINA

Operação Lava Lato investiga estrutura der pagamentos da Odebrecht

DEPARTAMENTO

A empreiteira mantinha uma área específica, chamada Setor de Operações Estruturadas, para realizar pagamentos ilícitos relacionados a obras públicas

PLANILHAS

Os repasses eram registrados em planilhas, com siglas ou codinomes de destinatários, valores, locais de entrega e projetos a que se referiam. Os pagamentos eram aprovados por e-mail

SECRETÁRIA

Essas planilhas eram mantidas pela funcionáriaMaria Lúcia Tavares, espécie de gerente de contabilidade do esquema. Presa, ela ajudou a PF a traduzir os relatórios e levantar os nomes suspeitos

RAIO X DA ODEBRECHT

Dados de 2014, os mais recentes
  • FATURAMENTO: R$ 107 bilhões
  • DÍVIDA: R$ 98 bilhões
  • FUNCIONÁRIOS: 128 mil
  • PAÍSES: 28
  • SETORES DE ATUAÇÃO: construção, petroquímica, concessões, agronegócios, saneamento, defesa, entre outros

Nenhum comentário:

Postar um comentário