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quinta-feira, 5 de junho de 2014

SAMUEL CELESTINO: O CAIXÃO OPOSICIONISTA

Quinta, 05 de Junho de 2014 - 10:30

Coluna A Tarde: O caixão oposicionista

Coluna A Tarde: O caixão oposicionista
O ex-governador por três vezes, senador que renunciou ao cargo por quebra do sigilo do painel do Senado, ministro de Estado, além de prefeito – o melhor até aqui – de Salvador nos anos 60, Antônio Carlos Magalhães costumava dizer à sua grande bancada de deputados estaduais, que quando esteve (por um mandato) na Assembléia Legislativa, eleito numa eleição suplementar que à época existia, ele costumava brigar na Assembléia. Resquício da sua adolescência no Campo da Pólvora, quando a briga de turma era normal na cidade do Salvador.  Diria que era uma espécie de jogo lúdico, com o enfrentamento dos jovens de bairros. Em compensação, os homicídios e violências maiores eram raros. Ele ensinava aos seus deputados que, quando brigava, o então governador Antônio Balbino (segunda metade dos anos 50 do século passado) costumava prometê-lo duas nomeações. E cumpria.
 
Assim, ele foi formando o mito que até hoje perdura. Quando o ambiente da Assembléia pesava, sua ordem para seu grupo político era provocar os adversários que estivessem na tribuna combatendo o seu governo e, se possível, chegar às vias de fato. Aconteceu diversas vezes, mas os deputados faziam as pazes e a política seguia, com o encontro deles às escondidas de ACM. Inclusive Luís Eduardo Magalhães, que detestava brigar.
 
Ao relatar um pouco da história, o faço para revelar que vi muitas coisas acontecerem na Assembléia, na época em que era repórter e cobria o Legislativo, que sempre foi o poder mais arejado e democrático do País, com exceção do período da ditadura militar, quando o governo cassava mandatos. Naturalmente não havia democracia coisa nenhuma.
 
Se vi e presenciei muitas coisas, difícil entender a falta de civilidade dos deputados estaduais da oposição que, vestidos de preto, ao anunciar um falso luto, levaram para a Assembléia Legislativa um caixão de defunto negro, uma faixa da mesma cor, numa total falta de respeito ao poder. Por que razão? Porque o governador Jaques Wagner fez o que todos os governadores praticamente fizeram ao longo do tempo. Encaminhou para o colegiado nomes de parlamentares para suprir as vagas dos tribunais de Contas do Estado e do Município. Não faz muito, A Tarde, numa reportagem necessária, revelou que tais tribunais (com exceções, claro) são preenchidos por políticos que passam a ter uma excelente remuneração vitalícia.
 
Nenhuma novidade, portanto. Trata-se de uma prática antiga, embora manifestamente inaceitável porque, em administração pública, o que resolve é a meritocracia e não o apadrinhamento. É isso, no entanto, que ocorre numa República que tem 39 ministérios para serem preenchidos, na sua maioria, pelos partidos políticos que, em troca, oferecem a base de apoio congressual ao presidente. De tal maneira que os candidatos de oposição à Dilma prometem reduzir os ministérios para 15, o que seguramente é suficiente.
 
Esta política fisiologica se implantou no Brasil de há muito e se acentuou com o período do PT no governo, quando o Estado foi praticamente aparelhado, o que gerou uma administração da União e dos estados lastimáveis. Não é, ressalto, somente o PT, mas os partidos de maneira geral, que já são 34, todos em busca de vantagens em detrimento da população que paga os impostos para alimentar e fornir este tipo de política mesquinha e torta.
 
A Assembléia baiana ofereceu, a partir da sua oposição, uma péssima imagem para o poder que foi, visivelmente, desrespeitado. Se sempre as vagas dos tribunais foram preenchidas deste modo, qual a novidade praticada pelo governador Jaques Wagner? Nenhuma, obviamente. Seguiu o rito cultivado ao longo do tempo pelos mandatários, governadores e presidentes. Se a oposição desejou golpear a Assembléia em razão do ano político, errou e errou feio. Condena-se o preenchimento de cargos pelos critérios políticos, mas nunca é demais dizer que está prática é comum nesta Pindorama sucupira.


*Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde desta quinta-feira (5)

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